Voltar à mesma palavra, à mesma frase ou à mesma construção, no começo de versos ou de frases seguidas (anáfora) ou ao longo do texto, para dar ritmo, ênfase ou insistência.
Em O Mestre e Margarida
Aqui o ajudarão... está me ouvindo?... Aqui o ajudarão... O senhor se sentirá aliviado. É silencioso e tranquilo aqui... Aqui o ajudarão...
“Aqui o ajudarão” volta três vezes, quase como cantiga, entre frases de conforto como “É silencioso e tranquilo aqui”. A insistência suave acalma Ivan e o convence a ficar, sem que o doutor discuta uma só palavra do que ele viu.
Primeira Parte, capítulo 8: O duelo entre o professor e o poeta, O doutor Stravinski
Não tenha medo, não tenha medo, meu pequeno [...], foram os meninos que quebraram os vidros.
“Não tenha medo, não tenha medo” repete o pedido em tom de embalo, para acalmar o menino assustado. A repetição suaviza a voz rouca de Margarida e acompanha a mentira gentil de que “foram os meninos que quebraram os vidros”.
Segunda Parte, capítulo 21: O voo, Margarida
Nunca peça nada! Nunca peça nada, principalmente àqueles que são fortes. Eles vão oferecer por conta própria e darão tudo também.
“Nunca peça nada! Nunca peça nada” repete a ordem com força de máxima, antes de justificá-la. A insistência dá ao conselho o tom de lei da comitiva e destaca a lição de dignidade que Margarida acaba de dar.
Segunda Parte, capítulo 24: O resgate do mestre, Woland
Trinta tetradracmas! Trinta tetradracmas! Tudo que recebi está comigo. Está aqui o dinheiro! Tomem, mas me deixem viver
“Trinta tetradracmas! Trinta tetradracmas!” repete a soma em grito, e a insistência mostra o pânico de um homem que tenta comprar a própria vida com as moedas: “Tomem, mas me deixem viver”.
Segunda Parte, capítulo 26: O sepultamento, Judas de Kerioth
Está livre! Está livre! Ele está esperando por você!
“Está livre! Está livre!” repete a notícia em grito para o eco levá-la pelas montanhas, e a insistência dá ao perdão de Pilatos o tamanho de um chamado que atravessa a planície.
Segunda Parte, capítulo 32: Perdão e refúgio eterno, O mestre
Para lá, para lá! Lá o aguardam uma casa e o velho escravo, as velas já estão acesas, mas logo se apagarão, porque você encontrará o amanhecer imediatamente.
“Para lá, para lá!” repete a direção, e o “Lá” que vem a seguir a retoma, como um empurrão suave. O ritmo insistente acompanha a despedida e leva o mestre até a casa.
Segunda Parte, capítulo 32: Perdão e refúgio eterno, Woland
Que execução vil! Por favor, diga-me [...] que ela não existiu! Suplico, diga-me, não existiu?
Pilatos repete “diga-me” duas vezes e reforça com “Suplico”, num pedido que quer negar o crime. A repetição mostra a ansiedade de quem, livre, ainda precisa ser consolado.