Crítica de pessoas, costumes ou instituições pelo ridículo, pelo exagero ou pela ironia.
Em O Mestre e Margarida
logo compreendia como era boa a vida dos felizardos membros da Massolit e logo começava a se morder de inveja, atormentado. E logo dirigia queixas amargas aos céus por não tê-lo premiado, ao nascer, com o talento literário, sem o qual, naturalmente, não podia nem sonhar em ser dono de uma carteirinha de membro da Massolit, cor de café, que cheira a couro caro e tem um largo debrum dourado
A inveja diante da carteirinha “cor de café, que cheira a couro caro” e tem “largo debrum dourado” ridiculariza uma associação em que o objeto cobiçado é o cartão de privilégio, não a literatura que ele deveria representar.
Primeira Parte, capítulo 5: Aconteceu na Griboiêdov, O narrador
São pessoas como outras quaisquer. Gostam de dinheiro, mas sempre foi assim... A humanidade gosta de dinheiro, independentemente do que seja feito: de couro, de papel, de bronze ou ouro. Bom, são levianas... fazer o quê... a misericórdia às vezes bate em seus corações... são pessoas comuns... em geral fazem lembrar as pessoas de antigamente... só que o problema habitacional as corrompeu...
Woland resume os moscovitas em poucas linhas: “Gostam de dinheiro”, seja “de couro, de papel, de bronze ou ouro”, e “são levianas”. O comentário brando ri da cidade, e a corrupção parece mais ridícula do que monstruosa, com a culpa lançada ao cotidiano.
Primeira Parte, capítulo 12: Magia negra e sua revelação, Woland
Uma criança, uma carta anônima, um panfleto, uma bomba-relógio e sabe-se lá o que mais, mas ninguém se desfaria de quatrocentos dólares
A cena do sonho ri das campanhas de confisco de moeda estrangeira: deixa-se à porta alheia “uma criança” ou “uma bomba-relógio”, mas ninguém abre mão de “quatrocentos dólares”. A delação vira espetáculo de plateia.
Atrás da enorme mesa de escritório, com um tinteiro maciço, estava o terno vazio, que escrevia com a pena seca pelo papel.
O “terno vazio” que “escrevia com a pena seca pelo papel” é a burocracia levada ao pé da letra: a autoridade continua despachando sem ninguém dentro e sem tinta. O poder aparece como hábito oco de assinar.
Primeira Parte, capítulo 17: O dia intranquilo, O narrador
está trajando um terno social lilás, está inchado de tanto salmão, mas tem dinheiro estrangeiro, e o nosso, o nosso?!
Korôviev finge indignação social contra o cliente “inchado de tanto salmão” que “tem dinheiro estrangeiro, e o nosso, o nosso?!”. A queixa expõe o critério da loja, que separa quem tem moeda forte de quem tem só rublos.
Segunda Parte, capítulo 28: As últimas aventuras de Korôviev e Behemoth, Korôviev