O romance e a Revolução de Julho
Stendhal tinha o livro no prelo no verão de 1830, quando a Revolução de Julho derrubou o rei Carlos X, e ele chegou às livrarias no fim daquele ano. A própria abertura registra o abalo: a Advertência diz que a obra estava prestes a sair quando os grandes acontecimentos de julho desviaram o gosto do público, e finge que as páginas foram escritas em 1827. O subtítulo, crônica de 1830, avisa que a matéria é a França daquele momento. Por isso o romance para no meio da conspiração para discutir a política: o editor imaginário argumenta que, sem ela, os personagens deixariam de ser franceses de 1830 (capítulo 22 do Livro II).
A França depois de Napoleão
Napoleão abdicou em 1814, voltou ao poder por cem dias e foi vencido de vez em Waterloo, em 1815; morreu prisioneiro na ilha de Santa Helena, em 1821. Os Bourbon voltaram ao trono, com Luís XVIII e, desde 1824, com Carlos X, e esse período, de 1814 a 1830, é a Restauração. Para um rapaz pobre e capaz, o país tinha mudado de regra: sob o Império, a carreira militar podia fazer general de um plebeu, e agora os melhores lugares dependiam de nascimento, de dinheiro e de proteção. É essa a conta que Julien Sorel faz quando troca o sonho de farda pela batina, depois de ler os boletins do Grande Exército e o Memorial de Santa Helena, o relato do exílio de Napoleão (capítulo 5 do Livro I). Os prefeitos, como Rênal, eram nomeados, não eleitos, e as intrigas por cargos, como a do primeiro-adjunto, movem a cidade inteira (capítulo 17 do Livro I). Em Paris, o túmulo do marechal Ney, fuzilado em 1815, não tem epitáfio, porque uma política prudente lhe nega essa honra (capítulo 2 do Livro II).
A Igreja no centro do poder
Na Restauração, a Igreja Católica voltou a pesar na política, e o romance a mostra por dentro. A Congregação, associação de leigos e padres fundada em 1801, reunia os tradicionalistas e favorecia a carreira dos seus membros; em 1830, a imprensa de oposição falava em um governo da sombra de jesuítas e fanáticos. Ela aparece já na cena em que o juiz de paz de Verrières passa a julgar para agradar a um jovem vigário tido como espia da Congregação (capítulo 5 do Livro I), e ganha corpo no vigário-geral Frilair, que manda em Besançon (capítulo 29 do Livro I). Dentro do clero há outra divisão: Chélan e Pirard são jansenistas, adeptos de uma corrente rigorista, condenada pela Igreja, que se opunha à moral frouxa que atribuía aos jesuítas, e por isso são tratados como suspeitos (capítulo 18 do Livro I). No Livro II, Stendhal inventa uma reunião secreta de nobres e prelados em que um cardeal defende dar tudo ao clero, e a cena dá corpo ao temor de um governo paralelo de que falava a oposição (capítulo 23 do Livro II).
O crime que deu o enredo
O enredo tem fonte real. Antoine Berthet, ex-seminarista, atirou na antiga amante, a sra. Michoud, dentro da igreja da aldeia, durante a missa, em 22 de julho de 1827. Ela sobreviveu. Berthet foi julgado em dezembro de 1827, condenado à morte e guilhotinado em Grenoble, cidade natal de Stendhal, em 23 de fevereiro de 1828. O processo saiu na Gazette des Tribunaux, jornal que Stendhal lia e que o próprio romance cita (capítulo 22 do Livro II). O tiro na igreja de Verrières (capítulo 35 do Livro II) e o julgamento (capítulo 41 do Livro II) seguem esse caso de perto. O romance acrescenta o que o processo não tinha: a ambição de Julien, os salões de Paris e o discurso ao júri.
Como foi recebido
Na época, o livro encontrou poucos leitores, e o próprio Stendhal afirmava escrever para leitores de um futuro distante. Só nas décadas seguintes à morte dele, em 1842, o romance passou a ocupar o lugar de grande romance francês do século XIX.