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O Vermelho e o Negro · Livro II · Capítulo 41

O julgamento

Resumo do capítulo

Na véspera do julgamento, Mathilde de La Mole leva ao Abade de Frilair a carta em que o bispo pede a absolvição, e ele garante um veredicto de absolvição, porque conta com ela para chegar ao bispado, citando seis amigos devotados entre os doze jurados, o barão Valenod e os dois administrados deste, e um industrial rico que aspira a um fornecimento do Ministério da Guerra. Julien Sorel, decidido a deixar só o advogado falar, desce da prisão no meio de uma multidão que lhe inspira, para sua surpresa, uma terna compaixão, e entra num tribunal onde as mulheres ocupam as tribunas, entre elas a sra. Derville. O advogado comove a plateia, e Julien só retém as lágrimas ao surpreender um olhar insolente de Valenod. Passada a meia-noite, quando o presidente lhe pergunta se tem algo a acrescentar, ele se levanta e, num discurso que faz a plateia chorar, assume a premeditação, nega ser julgado por seus pares e diz que querem puni-lo por sua origem; a sra. Derville desmaia. Perto das duas da manhã, Valenod lê a declaração unânime de culpa por homicídio com premeditação, a pena de morte é pronunciada, e Julien só gostaria de dizer à Madame de Rênal que se julga justamente condenado.

O júri é trabalhado por cálculo político antes de qualquer audiência, e para absolver.

Análise

Entre as doze pessoas encarregadas de examinar se o crime de seu protegido é incontestável e, sobretudo, se houve premeditação, conto com seis amigos devotados a minha causa, e dei-lhes a entender que dependia deles levar-me ao bispado.

Entre esses amigos, Frilair conta com o barão de Valenod, que ele fez prefeito de Verrières e que dispõe de mais dois jurados. É justamente Valenod quem lê o veredicto de culpa em nome do júri, e depois Mathilde conta a Julien que ele, já com a nomeação de governador no bolso, ousou zombar de Frilair e condená-lo.

É a peça que falta para entender por inteiro o discurso de Julien à tribuna: quando ele diz aos jurados que não é julgado por seus pares, o júri à sua frente já não é o corpo imparcial que a lei desenhou, é uma maioria trabalhada por um clérigo em troca de um cargo eclesiástico, e o discurso de classe dá a Valenod o pretexto para romper o acordo e condenar. A acusação de classe do discurso tem, debaixo dela, uma manipulação de classe muito concreta, e é ela que vira contra Julien.

Besançon inteira se aglomera para o julgamento, movida mais por curiosidade romântica do que por sede de justiça, e o discurso em que Julien vira a lógica da própria defesa contra si mesmo é o ponto mais citado de todo o romance.

No início do discurso, antes de qualquer defesa, Julien nomeia a distância de classe entre ele e os jurados, em vez de pedir clemência.

Senhores, não tenho a honra de pertencer à sua classe, os senhores veem em mim um camponês que se revoltou contra a baixeza de sua sorte.

Ele então recusa a graça, aceita a pena e converte a própria condenação em acusação: não é o crime que a sociedade vai punir com mais rigor, é a origem.

Não tenho ilusões, a morte me espera: ela será justa. Fui capaz de atentar contra a vida da mulher mais digna de todo o respeito, de todas as homenagens. A sra. de Rênal foi como uma mãe para mim. Meu crime é atroz e foi premeditado. Mereço, portanto, a morte, senhores jurados. Mas, ainda que fosse menos culpado, vejo homens que, sem levar em conta o que minha juventude possa merecer da piedade, vão querer punir em mim e desencorajar para sempre essa classe de jovens que, nascidos numa classe inferior e de alguma forma oprimidos pela pobreza, têm a sorte de conseguir uma boa educação e a audácia de se misturar ao que o orgulho dos ricos chama de boa sociedade.

Em seguida nega aos doze homens do banco o próprio direito de julgá-lo como igual, o gesto mais coerente de toda a sua trajetória de hipócrita involuntário.

Este é meu crime, senhores, e, na verdade, será punido ainda mais severamente por não ser julgado por meus pares. Não vejo nos bancos dos jurados nenhum camponês enriquecido, mas apenas burgueses indignados…

O barão de Valenod, agora nomeado governador, preside a leitura do veredito "num passo grave e teatral": o mesmo homem que Julien desprezara desde Verrières por servilismo e cobiça é quem pronuncia sua condenação à morte por homicídio premeditado.

O senhor barão de Valenod adiantou-se num passo grave e teatral, seguido por todos os jurados.

Julien diante da sentença: Apenas estas palavras: Julgo-me justamente condenado.

Para discutir Julien diz aos jurados que não é julgado por seus pares e que querem punir nele a origem, e a sra. Derville desmaia. O discurso é de defesa, de acusação ou de testamento, e a quem ele fala de fato?

Para discutir Julien declara que se julga justamente condenado e, no mesmo discurso, denuncia a classe que o julga. Por que ele aceita a pena e denuncia o tribunal ao mesmo tempo, e as duas atitudes cabem juntas?