Livro I, capítulo 1: Uma cidadezinha
Stendhal abre o romance por uma cidade e só depois chega ao herói. O que o retrato de Verrières, com suas serrarias, a fábrica de pregos do prefeito e o jardim de muros em terraço, já diz sobre o tipo de mundo em que Julien terá de abrir caminho?
Rênal passa a achar que poderia ter pago menos pelo terreno desde o domingo em que viu o velho Sorel sorrir para ele de longe, e o narrador fala em "tirania da opinião". O que esse medo de um sorriso mostra sobre quem, de fato, manda numa cidade pequena?
Livro I, capítulo 2: Um prefeito
O narrador chama de "grande palavra" de Verrières a expressão "DAR LUCRO" e diz que ela resume o pensamento habitual de mais de três quartos dos habitantes. O que significa, para quem vive ali, ter uma única medida para decidir tudo?
Rênal manda podar os plátanos até o limite e, ao cirurgião-mor que reclama, responde que gosta da sombra e que, ao contrário da útil nogueira, a árvore que não dá lucro só serve para dar sombra. O que esse argumento revela sobre o jeito como ele olha para a beleza e para o que é público?
Livro I, capítulo 3: Um cura
Se "dar lucro" é o critério moral de Verrières, o que dizer da hipocrisia de Julien, que também mede tudo por cálculo? A diferença entre os dois é de grau, de consciência do próprio jogo, ou de outra coisa?
Diante das queixas de Rênal e de Valenod, o cura Chélan responde com os cinquenta e seis anos em que batizou e casou os moradores e se diz pronto a ser destituído. Que tipo de autoridade é essa, que não se mede em dinheiro, e será que ela basta para proteger quem a tem?
Livro I, capítulo 4: Um pai e um filho
Julien é encontrado montado numa viga da serraria, lendo, surdo ao chamado do pai, e leva um golpe que derruba o livro no riacho. Por que o pai despreza no filho justamente a leitura, e o que a cena mostra sobre o que cada um dos dois chama de trabalho?
Quando Rênal propõe trezentos francos por ano, comida e roupa, Sorel pai o escuta "com aquele ar de tristeza insatisfeita" e pede para consultar o filho. O que esse jeito de negociar mostra sobre como um camponês esperto trata quem é mais rico e mais poderoso do que ele?
Livro I, capítulo 5: Uma negociação
Julien admira Napoleão como modelo de ascensão por mérito próprio, mas o esconde e finge devoção. É possível separar, nele, a ambição legítima (subir por talento, numa sociedade que fecha as portas ao pobre) da ambição corrompida (subir por qualquer meio, inclusive a mentira)? Onde, neste capítulo e no anterior, o texto já mostra a fresta entre as duas?
Julien decora o Novo Testamento em latim sem acreditar nele, e o narrador pede paciência ao leitor com a "palavra horrível" a que o rapaz chegou. Ao explicar o caminho da alma de Julien até ali, o narrador o condena, o desculpa ou faz outra coisa?
Livro I, capítulo 6: O tédio
A sra. de Rênal se apaixona pela delicadeza física de Julien antes de saber quem ele é; Julien calcula cada gesto diante dela desde o primeiro dia. O leitor deve confiar em algum ponto de espontaneidade real da parte dele, ou tudo, já no capítulo VI, é encenação?
Julien chega à casa de Rênal e logo pensa: "Como essa gente rica é feliz!". De que modo a felicidade que ele vê nos outros, e que atribui à riqueza, pode estar moldando aquilo que ele vai querer conquistar?
Livro I, capítulo 7: As afinidades eletivas
A sra. de Rênal ama em Julien "a generosidade, a nobreza da alma, a humanidade" que ela não vê em mais ninguém à sua volta. Ela está certa sobre o caráter dele, ou está projetando num rapaz calculista as virtudes que faltam ao próprio marido?
Rênal responde à ideia de presentear Julien com roupas dizendo que não se dá presente a "um homem com o qual estamos absolutamente satisfeitos", e que só se estimula o zelo de quem se torna negligente. Que ideia de trabalho e de gratidão está embutida nessa lógica, e o que ela deixa para quem serve?
Livro I, capítulo 8: Pequenos acontecimentos
Ao saber que Élisa quer casar com ele, Julien ouve de Chélan que, sendo padre, terá de "fazer fortuna neste mundo ou no outro", e para recusar a moça inventa uma calúnia contra ela. O que o conselho do cura e o meio que Julien escolhe para se livrar de Élisa já mostram do jeito dele de decidir?
A sra. de Rênal pensa nas paixões como nós pensamos na loteria, e o excesso de felicidade ao saber que Julien recusou a criada quase lhe tira o uso da razão. O que o texto sugere sobre a distância entre o que ela julga saber do amor e o que já está sentindo?
Livro I, capítulo 9: Uma noite no campo
Julien se impõe um prazo: quando soarem as dez horas, ou toma a mão da sra. de Rênal, ou sobe ao quarto e estoura os miolos. Por que ele trata um gesto de sedução como questão de honra, e o que isso diz sobre o que ele busca nela?
De mãos dadas com Julien sob a tília, a sra. de Rênal "não pensava em nada, deixava-se viver", enquanto ele passou o dia calculando. Que contraste o capítulo monta entre os dois, e quem, ali, está mais perto do que se costuma chamar de amor?
Livro I, capítulo 10: Um grande coração
Julien enfrenta Rênal diante dos criados, arranca o aumento e, no bosque, diz a si mesmo: "Ganhei uma batalha!". Por que ele descreve uma discussão sobre salário como batalha, e o que se ganha, e o que se perde, ao enxergar a vida desse modo?
No alto da rocha, Julien inveja a força e o isolamento de um gavião e se pergunta se o destino de Napoleão será o seu. O que a imagem da ave de rapina diz sobre o tipo de grandeza que ele deseja, e o que ela deixa de fora?
Livro I, capítulo 11: Uma noite
Julien resolve tomar a mão da sra. de Rênal diante do próprio marido, que fala de política com raiva, e depois chama a vitória de "puro Napoleão". O que significa tratar uma sedução como campanha militar, e o que o narrador parece pensar disso?
Ao descobrir que está apaixonada, a sra. de Rênal é tomada pelo terror da palavra "adultério" e resolve tratar Julien com perfeita frieza. Por que ela sente o amor primeiro como ameaça de castigo público, e o que isso mostra da educação que recebeu?
Livro I, capítulo 12: Uma viagem
Julien recusa a sociedade de Fouqué, que lhe daria quatro mil francos por ano, dizendo que a vocação para o santo ministério não lhe permite aceitar. Que razão parece mover de fato o rapaz, e por que ele escolhe justamente a vocação como desculpa?
Sozinho e longe de qualquer olhar, Julien conhece a maior felicidade que teve até ali, feita de devaneios e do "gozo da liberdade". Por que a maior felicidade dele aparece onde não há ninguém para vê-lo, e o que isso diz sobre a vida que escolheu levar entre os outros?
Livro I, capítulo 13: As meias rendadas
De volta, Julien percebe que desde a antevéspera não pensou uma única vez na sra. de Rênal, enquanto ela, que passou a ausência em suplícios, aparece de meias rendadas e sapatinhos de Paris. O que cada um revela de si por esses gestos, e por que o capítulo acentua essa diferença entre os dois?
Julien desconfia da sra. de Rênal ("Sabe Deus quantos amantes já não teve!") e, ao dizer "tão bem-nascidos", sente que aos olhos dela não é bem-nascido. De que modo a classe contamina, em Julien, a leitura que ele faz dos sentimentos dos outros?
Livro I, capítulo 14: A tesoura inglesa
Julien redige um "plano de campanha" porque seu orgulho "não queria deixar nada ao acaso", e é o plano que o deixa desajeitado diante da sra. de Rênal. Por que o cálculo atrapalha justamente onde ele mais quer ter sucesso?
A sra. de Rênal pergunta se ele não tem outro nome além de Julien, e ele não sabe o que responder; mais tarde ela lhe diz "Seja prudente, é uma ordem!". O que as duas cenas mostram sobre quem conduz a relação nesse momento, e sobre o que Julien não sabe fazer?
Livro I, capítulo 15: O canto do galo
Se nem a conquista da sra. de Rênal, o primeiro grande sucesso do livro, dá a Julien a felicidade que ele esperava, o que isso antecipa sobre o tipo de ambição que o move: ele quer alguma coisa em si, ou só quer não perder?
Julien chega ao quarto da sra. de Rênal trêmulo, esquece os planos, cai aos pés dela em lágrimas, e é então que ela o aceita. Por que o gesto sem cálculo é o que funciona, depois de tantos planos que só o deixaram desajeitado?
Livro I, capítulo 16: O dia seguinte
No almoço do dia seguinte, a conduta de Julien foi "uma obra-prima de prudência", enquanto a sra. de Rênal não conseguia fitá-lo sem corar. Que diferença essa cena marca entre amar e representar, e o que cada um dos dois arrisca ao se comportar assim?
O narrador diz que o amor de Julien "ainda era ambição", feito da alegria de possuir uma mulher tão nobre e tão bela. Esse amor vale menos por nascer da ambição, ou o romance sugere que nenhum amor nasce puro?
Livro I, capítulo 17: O primeiro-adjunto
Quando Julien elogia Napoleão no pomar, a sra. de Rênal franze as sobrancelhas, e ele conclui que ela "foi criada em campo inimigo". Pode haver amor entre duas pessoas que veem o mundo de lados opostos, e como o capítulo mostra os dois contornando isso?
Julien aprende com a sra. de Rênal as intrigas de Verrières e descobre que a disputa pelo posto de primeiro-adjunto, travada entre devotos, esconde o interesse de quem não quer que as casas recuem com o alargamento da rua. Por que, na cidade, devoção e interesse andam juntos, e o que Julien aprende ao perceber isso?
Livro I, capítulo 18: Um rei em Verrières
Julien desfila como guarda de honra, num dos cavalos normandos de Valenod, e por um instante se sente ordenança de Napoleão; depois troca a farda pela batina. O que o episódio diz sobre a relação do rapaz com as duas roupas, e o que a cidade enxerga ao vê-lo vestido assim?
Julien surpreende o jovem bispo de Agde ensaiando bênçãos diante do espelho e, em vez de se decepcionar, sai deslumbrado. O que ele vê ali, e por que o ensaio, que parece desmascarar o teatro, não abala o prestígio da Igreja aos olhos dele?
Livro I, capítulo 19: Pensar faz sofrer
A sra. de Rênal trata o adultério como crime e ao mesmo tempo diz que o cometeria de novo; dá para sustentar as duas coisas ao mesmo tempo, ou uma delas é para os outros ver?
Na petição de Cholin, o titular da agência de loteria deve ser substituído porque está muito doente e "vota mal nas eleições". O que o pedido mostra sobre o que Verrières entende por mérito, e o que isso significa para um rapaz como Julien, que também precisa conquistar um lugar pela aparência de devoção?
Livro I, capítulo 20: As cartas anônimas
A sra. de Rênal, que um capítulo antes se via condenada, escreve a Julien um plano com ordens precisas, até "arme-se de paciência e de uma tesoura". O que essa mudança mostra sobre o modo como a culpa e a ação convivem nela?
Para livrar Julien, a sra. de Rênal monta uma segunda carta anônima, recortada e colada em papel que veio da casa de Valenod, a fim de que o marido acuse o rival. O que a facilidade dessa mentira diz sobre a mulher que a inventa e sobre o mundo em que ela vive?
Livro I, capítulo 21: Diálogo com um mestre
Rênal passa a noite imaginando matar a mulher, expulsá-la ou fingir que nada sabe, e conclui que o escândalo lhe sairia caro. O que a decisão dele mostra sobre o que ele ama e sobre o que o contém?
O narrador diz que "é a golpes de desprezo público que um marido mata sua mulher", fechando-lhe as portas dos salões. O que essa frase explica sobre o medo que move tanto a sra. de Rênal quanto o marido?
Livro I, capítulo 22: Maneiras de agir em 1830
Na casa de Valenod, Julien recita o Novo Testamento e vira moda, mas chora ao ouvir o diretor do asilo dizer que mandou calar o preso que cantava. O que esse choro revela sobre os limites da hipocrisia de Julien?
Rênal e Valenod passam a disputar Julien como preceptor, um humilhado por ver o próprio nome na última linha das coletas das confrarias, o outro dependente do vigário-geral. O que a disputa mostra sobre quem tem poder em Verrières, e o que ela torna possível para Julien?
Livro I, capítulo 23: Dissabores de um funcionário
O padre Chélan resolve o problema de Julien mandando-o embora sem discutir o pecado com ele; é proteção ou é a Igreja despachando um problema para outra porta?
Diante do cantor Geronimo, que ganha sessenta mil francos por uma esperteza de teatro, Julien pensa que "melhor ser um Geronimo do que um Rênal". O que o cantor oferece como modelo, e como ele ilumina a ideia que Julien faz de sucesso?
Livro I, capítulo 24: Uma capital
Julien chega a Besançon à paisana e, diante das muralhas, sonha com a farda de subtenente. Por que ele ainda vê o mundo pela farda quando está prestes a entrar para a batina?
Em Besançon, Julien recita a Nova Heloísa de cor para seduzir Amanda, quase se bate com um dos amantes dela e logo pensa que entre o seminário e a prisão "não deve haver muita diferença". Que mundo ele sente que deixa para trás, e o que ele teme encontrar?
Livro I, capítulo 25: O seminário
Julien desmaia quando o abade Pirard o encara e pergunta o nome, e o narrador cita a explicação de um filósofo, "a violenta impressão da feiura sobre uma alma feita para amar o que é belo", acrescentando que o filósofo talvez se engane. Que outra explicação o texto permite para o desmaio?
Pirard se surpreende com a extensão do conhecimento que Julien tem da Escritura, mas estranha que ele mal conheça os Padres da Igreja, e vê nisso "a tendência fatal ao protestantismo" que reprova em Chélan. Por que saber muito da Bíblia e pouco da tradição é suspeito, e o que isso mostra sobre a Igreja em que Julien está entrando?
Livro I, capítulo 26: O mundo ou o que falta ao rico
Se hipocrisia bem-sucedida exige treinar até o modo de comer um ovo, o que sobra de Julien quando ele finalmente aprender a fazer tudo isso sem esforço?
Ao ver que no seminário a ciência vale pouco, Julien pensa: "E eu era tolo em me orgulhar!", falando de sua facilidade em captar baboseiras. O que o seminário premia que Verrières não premiava, e o que Julien perde ou ganha ao descobrir isso?
Livro I, capítulo 27: Primeira experiência da vida
O narrador diz que, em quem não é muito considerado, o hábito de raciocinar é um crime, "pois todo bom raciocínio ofende", e os colegas apelidam Julien de Martinho Lutero por causa da lógica dele. Por que pensar bem é perigoso nesse lugar, e quem sai mais desprotegido, quem raciocina ou quem obedece?
Ao primeiro trovão, o colega "em olor de santidade" afasta Julien dizendo "cada um por si neste mundo". O que essa cena mostra sobre a devoção do seminário, quando posta ao lado da fé que Julien viu na sra. de Rênal?
Livro I, capítulo 28: Uma procissão
Julien observa o padre Chas-Bernard, feliz com paramentos e castiçais, espera o golpe que não vem e conclui: "Que homem! Que exemplo para mim!". Por que um rapaz que desconfia de todos reconhece nesse padre algo que admira, e o que lhe falta para imitá-lo?
A sra. Derville diz a Julien que "sua presença deve causar-lhe horror", falando da sra. de Rênal, que desmaiou ao ouvir os passos dele. Ela tem razão, e o que o desmaio diz sobre o assunto?
Livro I, capítulo 29: A primeira promoção
Pirard avisa Julien de que os companheiros jamais o olharão sem odiá-lo e que, se fingirem amá-lo, será para melhor traí-lo. Por que é o homem mais rígido do seminário quem lhe fala com franqueza, e em que essa franqueza difere do cuidado que Julien encontra nos outros?
Os pedreiros do claustro lembram que no tempo de Napoleão se tornava oficial quem era pedreiro, e Julien repete a nostalgia deles em voz baixa. O que muda quando o bonapartismo dele deixa de ser gosto de leitor e aparece como sentimento de gente do povo?
Livro I, capítulo 30: Um ambicioso
Julien só vê no aviso de Fouqué a "pequenez de espírito de um burguês provinciano", pois ia finalmente atuar no "palco dos grandes acontecimentos". O que ele ganha, e o que perde, ao enxergar a própria vida como um palco?
Julien só vence a resistência da sra. de Rênal quando anuncia, com frieza calculada, que parte para sempre, e o narrador diz que a volta dela aos sentimentos ternos e o apagamento dos remorsos, obtidos mediante artifício, "não passaram de um prazer". Ele ganhou ou perdeu nessa noite?
Livro II, capítulo 1: Os prazeres do campo
Na diligência, Saint-Giraud diz que Bonaparte "tornou possível o reino dos Rênal e dos Chélan, que trouxe o reino dos Valenod e dos Maslon". Que cadeia de causas ele traça, e como Julien, que venera Napoleão, pode receber essa conta?
Diante do nome da família gravado em mármore negro sobre a porta da mansão, Julien pensa: "Eles têm tanto medo dos jacobinos!". Como esse medo explica o jeito de essa gente se exibir, e o que ele revela sobre o mundo em que Julien vai servir?
Livro II, capítulo 2: Ingresso na sociedade
O marquês se encanta com a biblioteca e com o latim de Julien, mas se desanima ao ver que ele erra a ortografia de uma palavra, e pensa que toda a experiência foi tempo perdido. O que a cena sugere sobre o que conta como saber na casa de La Mole?
No primeiro jantar, uma discussão sobre Horácio devolve a Julien a segurança e a estima do marquês. Por que é justamente o latim, e não a conversa de salão, que lhe dá voz ali, e o que isso diz sobre o lugar que ele ocupa na casa?
Livro II, capítulo 3: Os primeiros passos
Mathilde tenta em vão dissimular uma gargalhada com a queda de Julien e, indiscreta, quer saber detalhes; ele conta tudo com simplicidade e acaba rindo com ela. O que essa simplicidade consegue que um cálculo mais fino talvez não conseguisse?
Julien se sente "totalmente isolado" numa família que o trata com bondade, e suas trapalhadas fazem a alegria dos criados. O que torna a bondade de todos insuficiente para que ele se sinta acolhido?
Livro II, capítulo 4: A mansão de La Mole
Julien anota o nome e o caráter dos frequentadores do salão para se orientar, e o narrador diz que ali uma ideia viva, mínima que fosse, "parecia uma grosseria". Que tipo de sociedade precisa proibir a ideia, e o que ela protege com isso?
Pirard chama o salão de covil e avisa que o marquês não gosta de escrevinhadores, e Julien sobe ao quarto e queima um manuscrito seu. O que ele sacrifica nessa hora, e o que o gesto lembra de outros momentos em que escondeu ou queimou algo que era seu?
Livro II, capítulo 5: A sensibilidade e uma grande piedade
O conde Altamira, condenado à morte em seu país, é liberal e ao mesmo tempo devoto, e Julien se surpreende, pois a ideia de religião estava, para ele, ligada "à hipocrisia e à esperança de ganhar dinheiro". O que a figura de Altamira abala na imagem que Julien faz da fé?
O salão de La Mole dá a Julien um "tédio mortal", e ele se impõe nunca dirigir a palavra a Mathilde. Por que ele escolhe o silêncio como defesa, e o que se ganha, e o que se perde, com essa escolha?
Livro II, capítulo 6: Modo de pronunciar
Depois do duelo, na carruagem do adversário, Julien acha a conversa mais divertida do que a do salão de La Mole e conclui que aqueles senhores "se permitem ser indecentes". Por que o tédio de uns e a leveza de outros pertencem à mesma classe, e o que isso diz sobre o que o medo faz com as pessoas?
Para fugir do ridículo, Beauvoisis espalha que Julien é filho natural de um amigo do marquês, e o boato passa sem dificuldade. O que o episódio mostra sobre o valor da origem numa sociedade que diz medir tudo pelo nascimento?
Livro II, capítulo 7: Uma crise de gota
O marquês compara o afeto por Julien ao que se pode ter por "um belo cocker spaniel" e se pergunta onde está a inconveniência. Que tipo de apego é esse, e que lugar ele reserva a Julien na casa?
Depois de dar a loteria de Verrières ao velho Cholin sem saber que o posto era pedido para outra pessoa, Julien conclui que "será necessário cometer outras tantas injustiças" se quiser vencer. O que esse aprendizado muda no modo como ele vê o poder e o próprio mérito?
Livro II, capítulo 8: Qual a condecoração mais honrosa
No baile, Mathilde diz que só a condenação à morte honra um homem, porque é "a única coisa que não se compra". Por que essa lhe parece a única honra verdadeira, e o que a máxima dela deixa de fora?
Cercada de homenagens, Mathilde pensa que a sorte lhe deu tudo, "exceto a felicidade". O tédio dela é o de quem tem demais, ou o de quem foi educada para não precisar desejar nada?
Livro II, capítulo 9: O baile
Altamira diz que não há mais paixões verdadeiras no século XIX e que se praticam as maiores crueldades "mas sem crueldade", e cita a própria irmã, que dançou ao saber da execução do marechal Ney. O que ele quer dizer, e como o exemplo sustenta a tese?
Julien diz que "quem quer o fim quer os meios" e que, com poder, mandaria enforcar três homens para salvar quatro; depois se pergunta se quem quer expulsar a ignorância e o crime deveria "passar como a tempestade". Que moral ele está testando, e o que o texto deixa em aberto?
Livro II, capítulo 10: A rainha Margarida
Mathilde, de luto no dia 30 de abril, diz amar o século das guerras da Liga Santa e lamenta que nenhuma mulher de hoje tocaria na cabeça do amante decapitado. O que ela procura numa história de séculos atrás, e o que o presente lhe nega?
Julien compara a primavera atual à do ano anterior, vivida entre trezentos hipócritas, e acrescenta: "Eu era quase tão mau quanto eles". O que essa autoavaliação revela do modo como ele julga o próprio passado?
Livro II, capítulo 11: O império de uma moça
Depois de se divertir passeando com Julien, Mathilde decide, num "arroubo de incrível alegria", que está amando. Dá para chamar de amor um sentimento que nasce como decisão?
Mathilde se entedia com as cartas todas iguais de Croisenois, Caylus e dos outros, e as compara, desfavoravelmente, aos atos de grandeza do tempo do Império. O que o tédio dela revela sobre o que a sua classe perdeu, e por que o remédio é procurado no passado?
Livro II, capítulo 12: Será um Danton
Mathilde pensa que, se Julien fosse nobre, o amor dela seria "uma aliança desigual", sem "a enorme dificuldade a ser vencida" que caracteriza as grandes paixões. Por que ela precisa de obstáculo para amar, e o que isso diz sobre a natureza da paixão dela?
Ao ouvir do irmão que, se a revolução recomeçar, Julien os mandará à guilhotina, Mathilde decide que é o maior dos elogios ("Será um Danton!"). O que a leva a tomar por elogio aquilo que ameaça a própria classe?
Livro II, capítulo 13: Uma conspiração
Julien só consegue admirar Mathilde depois de imaginá-la como uma Catarina de Médici, e, ao receber a declaração, teme uma armadilha, manda copiar a carta e envia o original escondido numa Bíblia. O que o impede de aceitar ser amado?
Ao receber a declaração, Julien pensa que "o pobre carpinteiro do Jura venceu", e antes repetia que cada um é por si "nesse deserto de egoísmo que chamam de vida". Que tipo de vitória ele sente, e sobre quem?
Livro II, capítulo 14: Pensamentos de uma moça
Mathilde pensa que os pretendentes desafiam o perigo "à frente de um esquadrão brilhante de aço", mas recuam diante do "perigo solitário, singular, imprevisto". Que tipo de coragem ela cobra deles, e será que ela própria a tem?
Mathilde imagina que, se Julien um dia tiver todo o poder sobre ela, dirá como Medeia: "resta-me EU". O que essa citação diz da imagem que ela faz de si mesma e do tipo de entrega que aceita?
Livro II, capítulo 15: Será uma conspiração
Julien pensa que, se recusar o convite, se desprezará depois, pois "uma dúvida assim é a mais humilhante das desgraças". A honra que ele despreza no salão é a mesma que o empurra escada acima, e o que isso diz sobre os valores dele?
Julien compara o risco da noite a um duelo: "há defesa para tudo, como diz meu mestre de armas; mas Deus [...] faz com que um dos dois se esqueça de se defender". O que essa imagem diz de como ele entende o amor?
Livro II, capítulo 16: Uma hora da manhã
Se os dois sabem, cada um a seu modo, que estão representando um papel, o que resta para chamar aquilo de amor, e por que o texto ainda insiste em chamar?
Julien pensa que não está triunfando sobre Croisenois como imaginava, que "apenas vou sucedê-lo", e logo se consola com a raiva que o rival sentirá por ter um sucessor. De que a vaidade dele se alimenta mais, do amor de Mathilde ou da derrota dos outros?
Livro II, capítulo 17: Uma velha espada
Por que quase ser morta reacende o desejo de Mathilde com mais força do que qualquer declaração de amor teria?
Julien conclui que, para Mathilde, a religião serve aos "interesses de sua casta". Ele, que usou a batina como disfarce, está em condições de julgá-la, e o que o seu diagnóstico diz sobre ele?
Livro II, capítulo 18: Momentos cruéis
Por que a declaração mais franca de Julien, a que deveria comovê-la, faz Mathilde passar do prazer de torturá-lo ao desprezo?
Julien ouve as confidências de Mathilde na mesma alameda onde esperara soar uma hora para entrar no quarto dela e depois a vigia por uma janelinha, de persiana fechada. O que o faz aceitar o papel de ouvinte e de vigia, e o que isso mostra do poder que ela tem sobre ele?
Livro II, capítulo 19: A Ópera Bouffe
Esse desenho involuntário é a prova de que existe, afinal, alguma coisa espontânea sob o cálculo, ou é só mais um material que a própria Mathilde vai usar para se convencer de sua paixão?
O narrador defende que "um romance é um espelho que se leva ao longo de uma grande estrada" e que se deve acusar o lamaçal, não o espelho. Que responsabilidade ele recusa, qual assume, e como isso se aplica ao que o leitor acabou de ler sobre Mathilde e Julien?
Livro II, capítulo 20: O vaso japonês
Diante do vaso quebrado, Julien diz a Mathilde que ele "está destruído para sempre, assim como o sentimento que um dia imperou em meu coração". Ele fala a verdade, mente, ou usa a mentira para dizer a verdade?
A sra. de La Mole comenta que Julien parece orgulhoso e satisfeito com o estrago, e Mathilde reconhece nisso o sentimento que o anima. Por que o orgulho dele, e não o sofrimento, é o sinal que ela sabe ler?
Livro II, capítulo 21: A nota secreta
O marquês testa a memória de Julien com um número inteiro do La Quotidienne, até os anúncios, antes de lhe confiar uma missão secreta. Por que o talento que serviu à hipocrisia no seminário é agora o que o torna útil à conspiração, e o que o marquês arrisca ao confiar nele?
No salão da reunião, Julien observa que pessoas "de fisionomia tão medíocre" são incumbidas de "interesses tão elevados". O que o contraste entre rostos e missões sugere sobre o poder que ele vê pela primeira vez de perto?
Livro II, capítulo 22: A discussão
No meio da ata, o narrador interrompe o relato para dizer que a política num romance é "um tiro de pistola no meio de um concerto", e o editor responde que sem ela os personagens não seriam mais franceses de sua época. A quem o livro dá razão, e o que essa discussão diz sobre o romance que se está lendo?
O marquês propõe formar em cada departamento uma tropa de quinhentos homens devotados, metade deles fidalgos, paga com um quinto da renda de cada nobre. O que o plano revela do que ele entende por defender o trono, e quem fica de fora dessa defesa?
Livro II, capítulo 23: O clero, os bosques, a liberdade
O marquês confia a Julien a missão que nem o próprio filho saberia cumprir, decorar quatro páginas e percorrer cem léguas sem ser descoberto, mas nunca o convida a opinar sobre a conspiração, só a transportá-la: o que isso diz sobre o lugar que a política reserva ao mérito de Julien, mesmo quando esse mérito é indispensável?
O cardeal sustenta que sem o clero não se forma na França um partido armado e que é preciso conceder-lhe tudo: "Cinquenta mil padres repetem as mesmas palavras no dia indicado pelos chefes". O que o cardeal entende por força, e como isso conversa com a Igreja que Julien conheceu até aqui?
Livro II, capítulo 24: Estrasburgo
Um método de sedução copiado de um estrangeiro que nunca amou ninguém a sério pode produzir amor de verdade em quem o aplica, ou só produz mais um personagem para Julien representar?
Korasoff oferece a Julien a mão de uma prima rica de Moscou e a promessa de fazê-lo coronel em dois anos, e Julien pensa: "Não me casarei com os milhões que Korasoff me oferece", mas segue os conselhos dele. Que ambição ele recusa aí, e qual preserva?
Livro II, capítulo 25: O ministério da virtude
Bustos formula o enigma de que dependeria todo o futuro de Julien: a marechala seria "uma beata cansada de seu ofício e má por ser infeliz"? Por que Julien aceita basear um plano de conquista no retrato que dois adversários dela fazem?
Mathilde, que o esquecera durante a viagem e se dispunha a aceitar o casamento com Croisenois, muda de ideia assim que vê Julien de novo. O que a faz desejar de novo quem parece não desejá-la, e o que isso mostra sobre o amor dela?
Livro II, capítulo 26: O amor moral
A marechala acha o "padrezinho" da família encantador porque ele só sabe prestar atenção, e Julien vê nela a calma patrícia de quem não conhece emoção viva. Por que a atenção silenciosa rende mais a Julien do que qualquer discurso, e o que isso diz do meio que ele quer conquistar?
Julien copia as cartas de Korasoff, cai de sono no meio da cópia e ri da homilia sobre a virtude, e ainda assim cumpre fielmente o ritual de entrega, com ar contrito. O que acontece com uma pessoa que executa um papel que ela mesma acha ridículo?
Livro II, capítulo 27: Os melhores cargos da Igreja
Julien se aproxima do que sempre quis, uma mulher cujo tio bispo distribui os melhores cargos da Igreja, e o jantar é medíocre e a conversa exasperante. O que a distância entre o prêmio e o prazer diz sobre a ambição dele?
Lendo as cartas vagas da marechala, Julien conclui que "só o que percebo de verdadeiro é um medo abominável do ridículo". O que o medo do ridículo explica sobre a alta sociedade que ele quer conquistar?
Livro II, capítulo 28: Manon Lescaut
Se toda palavra que Julien diz à marechala é, no relato do próprio narrador, mentira ou disfarce, o que exatamente Mathilde está admirando quando se impressiona com o maquiavelismo dele?
A marechala diz a Julien que "quem me ama não deve amar Napoleão". Por que, num salão devoto, a admiração por Napoleão vira exame de lealdade, e o que isso muda para quem a guardava em segredo?
Livro II, capítulo 29: O tédio
O narrador atribui o envolvimento da marechala ao tédio de uma vida que "só ambiciona o efeito sobre o público". Então é o tédio, e não a sedução, que abre a fechadura de Fervaques, e o que isso diz sobre o que as cartas copiadas por Julien fazem nela?
Mathilde descobre na gaveta de Julien as cartas de Fervaques sem abrir e cai a seus pés, e ele pensa: "Aí está essa orgulhosa, a meus pés!". O que Julien sente nesse instante, amor, vitória ou as duas coisas, e como o texto indica?
Livro II, capítulo 30: Um camarote na Ópera Bouffe
Se Julien vence por pura disciplina de método, sem sentir por um segundo o desapego que finge, essa vitória é dele ou é do príncipe Korasoff, que nunca aparece na cena?
Depois de resistir a Mathilde, Julien se culpa: "Como pude resistir-lhe?". Por que o amor dele cresce à medida que se afasta do momento da batalha, e o que isso diz sobre o que ele ama nela?
Livro II, capítulo 31: Amedrontá-la
Depois de forçar a leitura das Memórias de Santa Helena, Julien exclama: "O inimigo só vai me obedecer à medida que eu o amedrontar". Por que ele chama Mathilde de inimigo, e o que a escolha da palavra mostra sobre como ele ama?
A frieza de Julien cede junto às madressilvas, onde a lembrança do desespero passado o faz chorar, e ele disfarça dizendo que aquelas frases ternas foram elaboradas antes, para outra mulher. Por que ele prefere confessar uma mentira a confessar a emoção?
Livro II, capítulo 32: O tigre
O narrador compara Julien a um viajante inglês que criou um tigre e o acariciava, "mas sempre mantinha em sua mesa uma pistola carregada". Quem é o tigre nessa imagem, quem é o viajante, e o que a pistola protege?
Julien incorporou tão bem o papel que Mathilde passa a achar que, dos dois, é ela quem mais ama. O que ele ganha, e o que perde, ao ser amado apenas pelo personagem que representa?
Livro II, capítulo 33: O inferno da fraqueza
Quando o marquês o cobre de insultos, Julien pensa em Tartufo, "seu mestre", cujo papel sabia de cor, e lembra que Tartufo também se perdeu por uma mulher. O que a lembrança de Tartufo revela do jeito como Julien lê a própria situação?
Pirard, a quem Julien expõe três saídas, a morte, o duelo ou o exílio, torna-se o aliado mais útil de Mathilde e convence o marquês de que só um casamento público é prudente. Por que o austero jansenista se empenha por essa união, e o que isso diz do que ele valoriza?
Livro II, capítulo 34: Um homem de espírito
O marquês alterna entusiasmos de três dias e não consegue perdoar: ora pensa em fazer Julien desaparecer, ora em lhe dar fortuna e até o pariato. O que o vaivém mostra da luta entre a vaidade de classe e a afeição que ele sente por Julien?
Ao receber a patente e o nome de La Vernaye, Julien pensa: "meu romance está terminado, e o mérito é todo meu". Por que ele chama a própria vida de romance, e o que o narrador sugere ao pôr a frase no ponto mais alto da ascensão dele?
Livro II, capítulo 35: Uma tormenta
A versão da origem de Julien combinada com o marquês deixa de fora o pai verdadeiro: Sorel passa a ser só o carpinteiro que cuidou do menino. O que a nova biografia compra, e o que ela apaga?
Depois de ler a carta que o descreve como "pobre e ambicioso" que tentou subir "com a ajuda da mais consumada hipocrisia", Julien compra pistolas e vai à igreja de Verrières. Por que ele responde com um tiro, e o que o gesto mostra sobre o limite do cálculo que o guiou até ali?
Livro II, capítulo 36: Detalhes tristes
Ao juiz, Julien declara a premeditação, cita o artigo do código e diz merecer a morte, e só começa a se arrepender quando sabe que a sra. de Rênal está viva. O que a ordem desses movimentos diz sobre o que ele entende por culpa?
Antes de saber que a sra. de Rênal sobreviveu, Julien escreve a Mathilde uma carta de despedida em que a manda casar-se com Croisenois um ano depois de sua morte. Que tipo de gesto é esse, generoso, vaidoso ou frio?
Livro II, capítulo 37: Um torreão
O abade Chélan chega tão envelhecido que mal consegue falar, e a visita deixa Julien com a visão da morte "em toda a sua feiura", enquanto a dedicação de Fouqué lhe devolve a força. Por que a lealdade do amigo o fortalece e a presença do velho padre o abate?
O vigário-geral Frilair recusa o dinheiro das missas e pensa em fazer de Julien um mártir para se reconciliar com o marquês. Que uso a rede clerical dá a um condenado, e o que isso diz sobre a relação entre fé e interesse no livro?
Livro II, capítulo 38: Um homem poderoso
No palácio episcopal do vigário-geral Frilair, Mathilde "sentiu-se em Paris". O que a frase sugere sobre a relação entre a aristocracia parisiense e o clero provinciano, que o livro tantas vezes opõe?
Frilair afirma que, entre os trinta e seis jurados sorteados, contaria com oito ou dez amigos, e que poderia trabalhar pessoalmente pelo menos trinta. O que vira a justiça num lugar em que o sorteio já tem dono?
Livro II, capítulo 39: A intriga
Mathilde pede à rival Fervaques que consiga do bispo uma carta e venha a Besançon, e o narrador diz que a alma altiva dela "precisava sempre da ideia de um público e dos outros". Esse heroísmo é menos verdadeiro por ter plateia?
O narrador diz que a ambição morreu em Julien e que outra paixão ressurgiu das cinzas, "ele a chamava de remorso" por ter atirado na sra. de Rênal. Por que ele recusa o nome do que sente, e o que a palavra "remorso" lhe permite evitar?
Livro II, capítulo 40: A tranquilidade
Na prisão, Julien pensa que só conheceu "a arte de gozar a vida" depois de ver seu termo se aproximar. Por que a felicidade chega quando o futuro some, e o que ele passa a fazer com os dias que lhe restam?
Julien recusa com fúria a sugestão do advogado de alegar ciúme e insiste em dizer que houve premeditação. Por que ele prefere uma defesa que o condena a uma que talvez o salvasse, e o que protege com essa escolha?
Livro II, capítulo 41: O julgamento
Julien diz aos jurados que não é julgado por seus pares e que querem punir nele a origem, e a sra. Derville desmaia. O discurso é de defesa, de acusação ou de testamento, e a quem ele fala de fato?
Julien declara que se julga justamente condenado e, no mesmo discurso, denuncia a classe que o julga. Por que ele aceita a pena e denuncia o tribunal ao mesmo tempo, e as duas atitudes cabem juntas?
Livro II, capítulo 42
Julien recusa apelar porque "neste momento me sinto com coragem para morrer sem provocar muitos risos às minhas custas", e ninguém garante que a terá dali a dois meses. Que ideia de coragem é essa, e o que ela mostra sobre o que importa a ele no fim?
Julien se pergunta como persuadir a sra. de Rênal de que é só a ela que ama, se "quis matá-la por ambição ou por amor a Mathilde". O que a pergunta mostra sobre a incerteza que ele tem dos próprios motivos?
Livro II, capítulo 43
Diante do padre intrigante que reza de joelhos na lama à porta da prisão, Julien exclama: "Ó minha pátria! Como ainda és bárbara!". O que a raiva dele mostra sobre quanto o olhar dos outros ainda pesa em quem está prestes a morrer?
Julien condiciona a apelação ao juramento de que a sra. de Rênal não atentará contra a própria vida. Por que ele faz esse pedido, e o que ele revela do que sabe dela e de si mesmo?
Livro II, capítulo 44
Na cela, Julien conclui que "não existe um direito natural" e que só há direito onde uma lei proíbe sob pena de punição. Por que uma ideia dessas lhe vem justamente ali, e o que ela devolve ao julgamento que o condenou?
O velho Sorel visita o filho condenado e apresenta a conta das despesas de alimentação e de educação que adiantou. Por que o romance reserva essa cena ao pai, e o que ela fecha em relação ao modo como ele tratou Julien desde o início do livro?
Livro II, capítulo 45
Na manhã da execução, Julien pede a Fouqué que ponha Mathilde e a sra. de Rênal na mesma carruagem e exige da sra. de Rênal o juramento de viver para o filho de Mathilde. Por que o último pedido dele junta as duas mulheres, e o que ele faz com o amor de cada uma?
Mathilde entra no quarto onde Fouqué vela o corpo, põe a cabeça de Julien numa pequena mesa de mármore e a beija na testa. Isso é amor, teatro ou as duas coisas, e o que muda no modo de lembrar Julien conforme se responde?
Livro II, caps I-XV - Paris e o palácio de La Mole
Pergunta. Julien troca uma arena onde media tudo por dinheiro e voto por outra onde nada disso conta: o que muda, de fato, na natureza da guerra que ele trava, e o que continua sendo exatamente a mesma guerra com um vocabulário novo?
Pergunta. O Marquês de La Mole perdoa a falta de ortografia e não perdoa a falta de maneiras: por que a forma pesa mais que o conteúdo exatamente na classe que se define pela posse do conteúdo (livros, latim, história)?
Pergunta. Se o salão pune qualquer ideia viva com a pecha de mau gosto, que lugar sobra para uma convicção como a de Altamira, que já custou uma sentença de morte? O salão a tolera, a ignora ou precisa dela como espetáculo?
Pergunta. O marquês compara o afeto por Julien ao afeto por um cão de estimação bonito e original, dito com carinho genuíno: até que ponto essa comparação é também a medida exata do teto que Julien nunca vai furar nessa casa?
Pergunta. Mathilde decide que só a condenação à morte prova caráter, e ninguém no salão, exceto Altamira, pagou esse preço: o que significa fundar um ideal de grandeza sobre uma prova que a própria condição social de quem o formula torna quase impossível de cumprir?
Pergunta. Se Mathilde já amava a lenda antes de amar Julien, o que ela ama nele: o homem, ou o papel de Boniface de La Mole que ele, sem querer, começa a preencher?
Pergunta. Mathilde despreza o irmão e os pretendentes por não suportarem "o perigo solitário, singular, imprevisto"; mas ela mesma nunca correu risco nenhum além do risco social de uma carta indiscreta: até que ponto seu ideal de coragem é sincero, e até que ponto é mais um adorno de classe, como a fita do Tosão de Ouro do príncipe de Araceli?
Pergunta. Julien só se permite alegria depois de reler a vitória sobre Croisenois como uma pesagem de méritos, nunca como afeto correspondido: o que isso revela sobre o que ele efetivamente busca em Mathilde, o amor dela ou a prova de que pode vencer o nascimento dela?
Pergunta. Depois de nove blocos vendo Julien recusar, item por item, o valor que a aristocracia dá a si mesma (o nascimento, o duelo ritual, a fita de condecoração), ele decide agir por honra, a moeda mais aristocrática de todas: ele venceu o jogo do faubourg, ou foi absorvido por ele?
Livro II, caps XVI-XXX - Mathilde e o orgulho
O romance está descrevendo como o amor de fato funciona na aristocracia parisiense de 1830, ou está fazendo uma caricatura para valorizar por comparação o episódio de Verrières?
Até que ponto Julien está genuinamente apaixonado por Mathilde, e até que ponto ele está apaixonado pela vitória sobre uma classe que o despreza?
Livro II, caps XXXI-XLV - O tiro, o processo e a prisão
Se a ambição de Julien nunca foi por dinheiro nem por título, como o próprio texto insiste, o que exatamente ele venceu ao virar La Vernaye? E por que essa vitória, no instante em que se completa, já soa a despedida?
Por que um homem que planeja cada gesto da própria vida escolhe, na única vez em que age sem plano, um ato que o condena? O tiro liberta Julien de quê?
Abade de Frilair ajuda Julien por cálculo de carreira, não por justiça. Isso torna a ajuda menos real, ou o romance está dizendo que, nesse mundo, não existe ajuda que não seja interessada?
Julien diz aos jurados que o crime deles é puni-lo por classe, não pelo tiro. O discurso é verdade sobre o julgamento, ou é a última e maior construção retórica de um homem que a vida inteira construiu personagens de si mesmo?
Se a felicidade de Julien só aparece quando o futuro (ambição, cálculo, plano de vida) é retirado da equação, o que isso diz sobre o preço que ele pagou, ao longo de todo o romance, por perseguir esse futuro?
A sra. de Rênal não se mata, mas morre em três dias de qualquer forma. Ela cumpriu o juramento a Julien, ou o próprio corpo dela discordou do juramento que a cabeça fez?