Resumo do capítulo
Julien Sorel toca à porta do seminário (ver O seminário de Besançon) de Besançon, é conduzido por um porteiro de olhar de gato a uma sala nua e fica de pé, sem ser notado, diante do abade Pirard, que escreve em quadradinhos de papel. Quando o diretor o encara e lhe pergunta o nome, Julien desmaia; ao voltar a si, ouve a carta de recomendação do Abade Chélan e é submetido a um exame de teologia em latim, que revela conhecimento largo da Escritura, ignorância dos Padres da Igreja e todo o livro de Maistre sobre o papa recitado de cor. Pirard o proíbe de entrar em qualquer sociedade secreta sem o consentimento dele, manda anotar o uso dos trinta e cinco francos que Julien tem e lhe dá a cela 103, onde ele adormece e perde o jantar.
Análise
A chegada de Julien ao seminário, diante do Abade Pirard: O homem não notou a presença de Julien. Que se mantinha imóvel, de pé no meio do quarto, onde o deixara o porteiro, que ao sair fechou a porta. Dez minutos se passaram; o homem malvestido ainda escrevia. A emoção e o terror de Julien eram tamanhos que ele sentia que poderia desabar a qualquer momento. Um filósofo teria dito, enganando-se talvez: Eis a violenta impressão da feiura sobre uma alma feita para amar o que é belo.
O exame de teologia com o abade Pirard: O abade Pirard submeteu Julien a um exame em teologia, e ficou surpreso com a extensão de seus conhecimentos. Seu espanto aumentou quando o interrogou sobre a Sagrada Escritura. Mas, quando chegou às questões sobre as doutrinas dos Padres da Igreja, percebeu que Julien mal conhecia os nomes de são Jerônimo, santo Agostinho, são Boaventura, são Basílio etc. etc. Com efeito, pensou o abade Pirard, eis aí a tendência fatal ao protestantismo que sempre reprovei em Chélan. Um conhecimento profundo e demasiado profundo da Sagrada Escritura.
Tudo na entrada é ritual de aniquilamento: o porteiro de olhos de gato, a sala nua, o abade Pirard que o deixa de pé por mais de dez minutos, o faz desmaiar com um olhar e o submete a uma sessão de três horas. Mas Pirard, apesar da severidade, aceita Julien por causa de Chélan e logo o adverte contra as sociedades secretas.
Para discutir Julien desmaia quando o abade Pirard o encara e pergunta o nome, e o narrador cita a explicação de um filósofo, "a violenta impressão da feiura sobre uma alma feita para amar o que é belo", acrescentando que o filósofo talvez se engane. Que outra explicação o texto permite para o desmaio?
Para discutir Pirard se surpreende com a extensão do conhecimento que Julien tem da Escritura, mas estranha que ele mal conheça os Padres da Igreja, e vê nisso "a tendência fatal ao protestantismo" que reprova em Chélan. Por que saber muito da Bíblia e pouco da tradição é suspeito, e o que isso mostra sobre a Igreja em que Julien está entrando?