Resumo do capítulo
O pai interroga Julien Sorel sobre o que ele sabe da Madame de Rênal, conclui que há tratativa e lhe comunica a proposta; Julien recusa ser criado e pergunta com quem comerá, o que desconcerta o velho. Depois de duas horas de negociação, em que o camponês regateia até chegar a quatrocentos francos por ano, pagos adiantados no primeiro dia de cada mês, Rênal recolhe os cem francos que dera para o traje preto e decide ir ele mesmo com o rapaz à loja do sr. Durand. Julien, que pusera a salvo na casa do amigo Fouqué os livros e a condecoração, passa pela igreja de Verrières a caminho da casa de Rênal e, ao sair, vence o terror e segue para lá. No meio desse percurso o narrador recua para explicar a formação do rapaz e como ele chegou ao projeto de ser padre.
Análise
O capítulo V retrocede e explica a formação de Julien: o velho cirurgião-mor da Legião de Honra, veterano das campanhas napoleônicas na Itália, foi seu único mestre de afeto, e lhe deixou os livros; os três em que Julien crê são as Confissões de Rousseau, os boletins do Grande Exército e o Memorial de Santa Helena ("corão" é o Alcorão, a escritura dele): A coleção de boletins do Grande Exército e o Memorial de Santa Helena completavam seu corão. Ele se deixaria matar por essas três obras. Nunca acreditara em nenhuma outra.
Cap. V. Na negociação do salário do filho, o Sorel pai leva a melhor sobre o prefeito: a astúcia do camponês venceu a astúcia do homem rico, que não precisa dela para viver.
Depois dos catorze anos, porém, Julien vira a admiração por Napoleão em vocação fingida para o sacerdócio, no instante em que percebe, vendo o velho juiz de paz se desonrar por medo de desagradar um jovem vigário, que a carreira das armas que fez Bonaparte já não está aberta a um pobre: a batina (ver A farda e a batina) é o único caminho que resta para subir.
O episódio das colunas de mármore nomeia o poder que decide essa disputa: tornaram-se célebres na região, pelo ódio mortal que suscitaram entre o juiz de paz e o jovem vigário enviado de Besançon, tido como espia da congregação.
A Congregação é a rede clerical ultrarrealista que Stendhal nomeia de passagem aqui e vai encarnar de corpo inteiro no Abade de Frilair, no seminário (ver O seminário de Besançon) de Besançon: não é um homem que quase custa o cargo ao juiz de paz, é essa rede, e o próprio juiz, uma vez intimidado, passa a julgar contra os moradores que leem Le Constitutionnel.
Cântico das missões populares:Para sempre, na França, os Bourbons e a Fé!
Cap. V. A igreja nova de Verrières, começada quando Julien tinha catorze anos, entra na decisão dele junto com as sentenças do juiz de paz:
A construção da igreja e as sentenças do juiz de paz de súbito o esclareceram
A frase que resume o eixo do livro inteiro não usa as palavras "vermelho" e "negro", mas é elas: Hoje em dia vemos padres de quarenta anos recebendo cem mil francos de vencimentos, ou seja, três vezes mais do que os famosos generais de divisão de Napoleão. [...] É preciso ser padre.
O uniforme vermelho do soldado napoleônico e a batina negra do clero da Restauração são as duas únicas escadas sociais que a época oferece a um filho de carpinteiro; Julien escolhe a segunda por cálculo, não por fé, e o livro inteiro vai cobrar essa escolha.
Antes disso, no mesmo capítulo, vem a explicação do método: A palavra surpreende os leitores? Até chegar a essa palavra horrível, a alma do jovem camponês teve de percorrer um bom caminho.
A "palavra horrível" é hipocrisia, e o narrador a introduz como resultado de um raciocínio, não como vício de nascença: Julien decora o Novo Testamento em latim e o livro Sobre o papa do sr. de Maistre sem acreditar num nem noutro, porque a memória e a encenação são as únicas armas que tem contra a pobreza.
Para discutir Julien admira Napoleão como modelo de ascensão por mérito próprio, mas o esconde e finge devoção. É possível separar, nele, a ambição legítima (subir por talento, numa sociedade que fecha as portas ao pobre) da ambição corrompida (subir por qualquer meio, inclusive a mentira)? Onde, neste capítulo e no anterior, o texto já mostra a fresta entre as duas?
Uma passagem breve, quase perdida no meio do capítulo, funciona como presságio: na igreja de Verrières (ver A igreja de Verrières), Julien encontra um papel de jornal esquecido no genuflexório, sobre a execução de um certo Louis Jenrel, anagrama do próprio nome de Julien Sorel. Detalhes da execução e dos últimos momentos de Louis Jenrel, executado em Besançon no dia…
Julien reage com uma frase que soa a presságio: Pobre infeliz [...], seu nome acaba como o meu…
O leitor de primeira viagem não sabe ainda o que essa coincidência anuncia; quem já terminou o romance sabe que Stendhal plantou o fim no início.
Cap. V. Na saída da mesma visita, com as janelas da igreja cobertas de tecido carmesim por causa de uma festa:
Ao sair, Julien acreditou ver sangue perto da pia de água benta; era a água que se derramara: o reflexo das cortinas vermelhas que cobriam as janelas fazia com que parecesse sangue.
Para discutir Julien decora o Novo Testamento em latim sem acreditar nele, e o narrador pede paciência ao leitor com a "palavra horrível" a que o rapaz chegou. Ao explicar o caminho da alma de Julien até ali, o narrador o condena, o desculpa ou faz outra coisa?