Resumo do capítulo
Mathilde de La Mole ouve Julien Sorel dizer a Altamira "Sim, Danton é que era homem!" e passa a seguir a conversa dos dois: Altamira conta que o embaixador Araceli pediu sua extradição, que o Tosão de Ouro de Araceli custou a vida de trinta liberais afogados, e que a própria irmã dançou ao saber da execução do marechal Ney. Julien responde que quem quer o fim quer os meios, e Altamira lhe dá o diagnóstico da sociedade que pune o pensamento. Na volta, Julien passa a noite lendo a história da Revolução e, na biblioteca, no dia seguinte, perguntas de Mathilde o levam a perguntar se o homem que quer expulsar a ignorância e o crime deveria passar como a tempestade.
Análise
Cap. IX. Mathilde observando Julien no baile: Nunca se refere a si mesmo! Não é como Caylus ou Croisenois. Esse Sorel parece um pouco meu pai imitando à perfeição Napoleão no baile.
Cap. IX. Na conversa com o conde Altamira, no baile: tudo que se faz é sem prazer e sem reter na memória, até mesmo os crimes. Posso mostrar-lhe neste baile uns dez homens que vão para o inferno como assassinos. Eles já esqueceram o crime, e o mundo também.
Altamira confirma o diagnóstico com um exemplo cru: sua própria irmã dançou ao saber da execução do marechal Ney. "Não há mais paixões verdadeiras no século XIX: é por isso que o tédio impera na França. Praticam as maiores crueldades, mas sem crueldade." Julien responde com uma frase que vai voltar, mais tarde, como profecia sobre si mesmo:
quem quer o fim quer os meios; se eu não fosse insignificante e tivesse algum poder, mandaria enforcar três homens para salvar a vida de quatro.
Pouco antes, na mesma conversa, Altamira tinha colocado Julien e a si mesmo no mesmo banco dos réus sociais, por crimes opostos.
O senhor e eu, nesse jantar, seremos os únicos sem mancha de sangue, mas eu serei desprezado e quase odiado como um monstro sanguinário e jacobino, e o senhor, desprezado simplesmente como homem do povo, um intruso na boa sociedade.
Mais tarde, ainda no baile, Altamira nomeia o mecanismo que pune quem pensa nesse mundo, e o mecanismo que descreve não é de etiqueta, é de polícia.
Por aqui, tudo o que tem algum valor pelo espírito, a congregação o entrega à polícia correcional; e a boa sociedade aplaude.
As duas falas fecham o argumento que o resto dos capítulos 1 a 15 do Livro II só ilustra: a aristocracia parisiense não tolera nem o revolucionário estrangeiro nem o plebeu ambicioso pelo mesmo motivo, os dois vieram de fora da linhagem que a classe usa para se justificar, e o instrumento que pune o pensamento fora dessa linhagem, a congregação delatando à polícia, é o mesmo que, capítulos adiante, vai condenar Julien num tribunal.
Cap. IX. Julien, depois dessa conversa: o homem que quer expulsar a ignorância e o crime da terra deveria passar como a tempestade e espalhar o mal ao acaso?
Para discutir Altamira diz que não há mais paixões verdadeiras no século XIX e que se praticam as maiores crueldades "mas sem crueldade", e cita a própria irmã, que dançou ao saber da execução do marechal Ney. O que ele quer dizer, e como o exemplo sustenta a tese?
Para discutir Julien diz que "quem quer o fim quer os meios" e que, com poder, mandaria enforcar três homens para salvar quatro; depois se pergunta se quem quer expulsar a ignorância e o crime deveria "passar como a tempestade". Que moral ele está testando, e o que o texto deixa em aberto?