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O Vermelho e o Negro · Livro I · Capítulo 18

Um rei em Verrières

Resumo do capítulo

Em 3 de setembro um guarda anuncia que o rei de *** visitará Verrières no domingo, e o prefeito trata de conseguir o comando da guarda de honra para o devoto e medroso Moirod, enquanto a sra. de Rênal obtém que Julien Sorel seja nomeado guarda de honra no lugar de filhos de fabricantes ricos e manda confeccionar o uniforme dele em Besançon. Julien desfila a cavalo, num dos cavalos normandos de Valenod, sob a indignação da cidade, e por um instante se sente ordenança de Napoleão. Depois troca a farda pela batina e acompanha o padre Chélan a Bray-le-Haut, onde o jovem bispo de Agde, sobrinho do Marquês de La Mole, mostra ao rei a relíquia de são Clemente, e Julien o surpreende ensaiando bênçãos diante do espelho. A cerimônia tem o Te Deum e termina com as moças de Verrières prometendo ódio ao ímpio, e o marquês distribui dez mil garrafas de vinho aos camponeses.

Análise

O anúncio da visita do rei mobiliza Verrières num só golpe: Em 3 de setembro, às dez horas da noite, um guarda despertou a cidade de Verrières ao subir a rua principal a galope; trazia a notícia de que sua majestade, o rei de ***, chegaria no domingo seguinte, e já era terça-feira. O governador autorizava, isto é, requisitava a formação de uma guarda de honra; era preciso ostentar toda a pompa possível.

A Madame de Rênal usa toda a influência que tem para tirar Julien das roupas pretas (ver A farda e a batina) por um dia, e consegue mais do que imaginava: obteve primeiro do sr. Moirod, e em seguida do subgovernador de Maugiron, que Julien fosse nomeado guarda de honra em prejuízo de cinco ou seis filhos de fabricantes muito abastados, e dos quais pelo menos dois eram de uma piedade exemplar.

Um filho de carpinteiro veste a farda azul-celeste de coronel e desfila a cavalo diante do rei, no lugar de rapazes ricos e devotos, e a cidade inteira lê isso como afronta: é a fantasia napoleônica do livro, o vermelho, posta em cena por um dia, dentro da própria cerimônia que celebra a Restauração.

A mesma cerimônia leva Julien à antiga abadia de Bray-le-Haut, onde a Restauração encena o culto ao trono e ao altar ao mesmo tempo: o rei de *** não queria passar em Verrières sem visitar a famosa relíquia de são Clemente conservada em Bray-le-Haut, a uma légua apenas da cidade.

O ódio entre o clero ultrarrealista e o jansenismo, que vai definir todo o seminário de Besançon (ver O seminário de Besançon), já aparece aqui em ponto pequeno, na recusa do padre Maslon a receber o cura Abade Chélan no cortejo: — Estarei desonrado aqui e em Besançon — o padre Maslon respondeu — se ele aparecer em meu clero. Um jansenista, santo Deus!

Antes do cortejo, Julien surpreende o jovem bispo de Agde treinando o gesto que vai fazer diante do rei: O rei de *** está acostumado com um clero venerável e sem dúvida muito grave. Eu não queria parecer muito leviano, sobretudo devido à idade.

A bênção é ensaiada como número de teatro, com a mitra mal embalada em Paris, o espelho de acaju trazido da cidade e a preocupação de não parecer leviano diante do rei, e a polidez do moço, tão distinta da do Monsieur de Rênal, deslumbra Julien, que passa a pensar em quanto rende o bispado.

Na igreja, diante do rei ajoelhado, a cerimônia chega ao êxtase religioso e político ao mesmo tempo: Houve um Te Deum, nuvens de incenso, infinitas descargas de mosquetes e de artilharia; os camponeses estavam ébrios de felicidade e devoção. Um dia assim desfaz a obra de cem números de jornais jacobinos.

A frase final não é comentário do narrador sobre religião, é comentário sobre propaganda: um Te Deum bem armado vale, aos olhos do poder, mais do que cem edições de jornal de oposição.

Diante da relíquia, o jovem bispo de Agde fecha a visita com um sermão às moças ajoelhadas: o bispo de Agde pediu ao rei permissão para falar. Concluiu com palavras simples um pequeno discurso muito comovente, garantindo assim o melhor efeito. — Não esqueçam jamais, jovens cristãs, que viram um dos maiores reis da terra ajoelhar-se perante os servos deste Deus todo-poderoso e terrível. Fracos, perseguidos, assassinados sobre a terra, como veem pela chaga de são Clemente, que ainda sangra, os servos triunfam no céu.

Para discutir Julien desfila como guarda de honra, num dos cavalos normandos de Valenod, e por um instante se sente ordenança de Napoleão; depois troca a farda pela batina. O que o episódio diz sobre a relação do rapaz com as duas roupas, e o que a cidade enxerga ao vê-lo vestido assim?

Para discutir Julien surpreende o jovem bispo de Agde ensaiando bênçãos diante do espelho e, em vez de se decepcionar, sai deslumbrado. O que ele vê ali, e por que o ensaio, que parece desmascarar o teatro, não abala o prestígio da Igreja aos olhos dele?