Clavis Libri

O Vermelho e o Negro · Livro I · Capítulo 2

Um prefeito

Resumo do capítulo

Rênal imortaliza a própria administração com um muro de arrimo para o passeio público, a Alameda da Fidelidade, obra que lhe custou três viagens a Paris, e manda podar duas vezes por ano os plátanos da comuna. Ao velho cirurgião-mor que reclama da poda, responde que gosta de sombra e que, ao contrário da útil nogueira, uma árvore que não dá lucro não tem razão de ser. Num dia de outono ele passeia na alameda com a mulher e os três filhos e se queixa do "fulano de Paris", o sr. Appert, que dois dias antes entrou na prisão, no asilo de mendicidade e no hospital de Verrières. A Madame de Rênal pergunta que mal esse senhor pode fazer a quem administra o bem dos pobres com probidade, e o marido responde que ele veio só para lançar censuras que a imprensa liberal vai publicar, e que nunca perdoará o cura.

Análise

O narrador entrega a chave da cidade numa única frase maiúscula, que funciona como epígrafe interna do capítulo II: Eis a grande palavra que decide tudo em Verrières: DAR LUCRO. Por si só representa o pensamento habitual de mais de três quartos dos habitantes.

Tudo o que virá depois, o preceptorado de Julien Sorel incluído, vai ser negociado dentro dessa gramática: mesmo o afeto, na casa de Rênal, se traduz primeiro em francos.

O asilo de mendicidade que o Valenod dirige em Verrières é instituição real da época: Os abrigos para mendigos, criados por Luís XVI e extintos com a Revolução, foram revividos com Napoleão, em 1808, e paulatinamente abolidos com a Restauração. Em 1830, havia somente seis no país.

Para discutir O narrador chama de "grande palavra" de Verrières a expressão "DAR LUCRO" e diz que ela resume o pensamento habitual de mais de três quartos dos habitantes. O que significa, para quem vive ali, ter uma única medida para decidir tudo?

Para discutir Rênal manda podar os plátanos até o limite e, ao cirurgião-mor que reclama, responde que gosta da sombra e que, ao contrário da útil nogueira, a árvore que não dá lucro só serve para dar sombra. O que esse argumento revela sobre o jeito como ele olha para a beleza e para o que é público?