Resumo do capítulo
Preceptor frio, justo e impassível, mas amado porque sua chegada expulsou o tédio da casa, Julien Sorel sente ódio pela sociedade que o admite na outra ponta da mesa, sobretudo por Valenod, e é espancado pelos irmãos no bosque do Belvedere, onde a Madame de Rênal o julga morto. Comovida com a pobreza dele, ela quer dar-lhe roupas; o marido responde que não se presenteia quem serve direito, e quando ela oferece alguns luíses ao próprio Julien, ele os recusa, ofendido, e se diz pronto a mostrar a Rênal o livro de despesas. Rênal chama Julien de criado e lhe dá cem francos, que Julien relata à sra. de Rênal com um sorriso amargo, e ela compensa comprando, em dez luíses, os livros que ele deseja para os filhos; aos poucos Julien consegue que o prefeito aceite uma assinatura do livreiro em nome do mais baixo criado. Sozinhos, os dois mergulham num silêncio embaraçado, e a sra. de Rênal, que nunca sentira nada que se parecesse com o amor, não se faz censura alguma.
Análise
O narrador resume o preceptor em uma frase que é também um diagnóstico de personagem: As crianças o adoravam, ele não gostava delas; seu pensamento estava em outro lugar. [...] Frio, justo, impassível e contudo amado, porque sua chegada de alguma forma expulsara o tédio da casa, foi um bom preceptor.
Julien é eficiente e distante ao mesmo tempo, e essa distância, que deveria afastar a sra. de Rênal, é justamente o que a atrai: ela nunca tinha visto, nos homens de sua vida, alguém que não a tratasse como frágil ou como propriedade.
Cap. VII. A sra. de Rênal e o marido diante da pobreza de Julien: o nome de Julien e a sensação de uma alegria pura e intelectual eram sinônimos para ela. Atormentada pela ideia da pobreza do rapaz, a sra. de Rênal falou com o marido sobre presenteá-lo com roupas: — Que bobagem! — ele respondeu. — Que nada! Dar presentes a um homem com o qual estamos absolutamente satisfeitos? E que nos serve direito? Só se ele se tornasse negligente seria necessário estimular seu zelo.
Para discutir A sra. de Rênal ama em Julien "a generosidade, a nobreza da alma, a humanidade" que ela não vê em mais ninguém à sua volta. Ela está certa sobre o caráter dele, ou está projetando num rapaz calculista as virtudes que faltam ao próprio marido?
O Monsieur de Rênal cita, para justificar que Julien é um criado, uma frase do príncipe de Condé que leu nas Memórias de Besenval: "Toda essa gente", ele disse, "são nossos criados". É uma referência histórica real (o barão de Besenval, memorialista da corte de Luís XVI), e Stendhal a usa para mostrar que a hierarquia do Antigo Regime sobrevive intacta sob o verniz burguês da Restauração, só que agora paga em francos, não em títulos.
Cap. VII. O narrador sobre a formação sentimental da sra. de Rênal: A sra. de Rênal, rica herdeira de uma tia devota, casada aos dezesseis anos com um bom fidalgo, nunca na vida sentira ou vira nada que se parecesse minimamente com o amor.
Cap. VII. A frase seguinte diz quem foi a única fonte dela sobre o assunto, e é o cura:
O bom cura Chélan, seu confessor, fora o único que lhe falara do amor, a propósito do assédio do sr. Valenod, e lhe pintara um quadro tão repugnante que para ela a palavra representava a mais abjeta libertinagem.
Para discutir Rênal responde à ideia de presentear Julien com roupas dizendo que não se dá presente a "um homem com o qual estamos absolutamente satisfeitos", e que só se estimula o zelo de quem se torna negligente. Que ideia de trabalho e de gratidão está embutida nessa lógica, e o que ela deixa para quem serve?