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O Vermelho e o Negro · Livro I · Capítulo 29

A primeira promoção

Resumo do capítulo

Com uma carta de Chas-Bernard em favor de Julien Sorel na mão, Abade Pirard, prestes a deixar o seminário (ver O seminário de Besançon) depois de quinze anos, nomeia-o explicador do Novo e do Velho Testamento e o previne de que a inveja o perseguirá; Julien passa a jantar sozinho, ganha o respeito dos colegas quando Fouqué manda um cervo e um javali em nome de seus pais e brilha nos exames, mas um examinador nomeado por Abade de Frilair lhe arma uma cilada com Horácio, e o vigário-geral escreve de próprio punho o número 198 ao lado do nome dele. Chega uma letra de câmbio de quinhentos francos, que Julien julga ser da Madame de Rênal e que na verdade vem do Marquês de La Mole, em processo contra Frilair por um terreno e a quem Pirard serve. Quando o marquês o chama a Paris, Pirard escreve a própria demissão e manda Julien levá-la ao bispo; Julien conquista o prelado recitando Horácio e sai com um Tácito de presente. Pirard deixa o seminário depois de uma severa alocução aos alunos e é nomeado para uma rica paróquia a quatro léguas de Paris.

Análise

Pirard, apesar da severidade, é quem trata Julien sem cálculo: aceitou-o por causa de Abade Chélan, advertiu-o contra as sociedades secretas e agora o avisa sem rodeios. É ele, o mais rígido de todos, quem primeiro diz a Julien a verdade sobre o que o espera: seus companheiros jamais o olharão sem odiá-lo; se fingirem amá-lo, será para melhor traí-lo.

Essa frase é o resumo antecipado de tudo que Julien vai viver no seminário e, depois, em Paris.

A virada de sorte vem por dois canais que nada têm de santidade: a promoção a explicador, que Pirard concede com uma carta de Chas-Bernard na mão, e o cervo e o javali que Fouqué manda ao seminário em nome dos pais de Julien, que compram a ele mais respeito dos colegas do que qualquer exame. Houve, nesse meio-tempo, um recrutamento militar do qual Julien foi isento por ser seminarista.

Julien ouve por acaso, no jardim, os pedreiros do claustro comentarem o recrutamento, e a conversa deles nomeia sem rodeios o que a Restauração fechou: No tempo do outro, aí sim! Um pedreiro se tornava oficial, se tornava general, a gente via isso acontecer.

Ao se afastar, Julien repete baixinho a mesma nostalgia dos pedreiros, prova de que seu bonapartismo não é peculiaridade de leitura, é sentimento vivo na rua: O único rei de que o povo se lembra!

Admirar Napoleão Bonaparte não é gosto literário, é posição política, e o retrato que Julien escondeu no colchão, no capítulo 9 do Livro I, já tinha avisado disso: em 1830, essa lealdade se guarda em segredo, não se declara.

No exame geral, um examinador nomeado por Frilair arma uma cilada: deixa Julien recitar Horácio com entusiasmo por vinte minutos e depois o repreende por esses estudos profanos, e o vigário-geral escreve o número 198 ao lado do nome dele, por vingança contra Pirard, num conflito que corre em paralelo ao processo entre Frilair e o marquês de La Mole por um terreno, o fio que no fim conecta o seminário a Paris.

O alcance da rede que arma essa vingança é descrito sem meias palavras: aquele homem hábil que organizara tão sabiamente a rede da congregação de Besançon e cujas missivas para Paris faziam tremer juízes, o governador e até os oficiais da guarnição, escrevesse, de próprio punho, o número 198 ao lado do nome de Julien.

Um vigário-geral capaz de intimidar juízes, governador e guarnição não administra só almas, administra carreiras, e é essa rede, chamada aqui pelo próprio nome, Congregação, que decide quem sobe e quem cai em toda a Restauração de província, dentro e fora do seminário.

O próprio abade Pirard nomeia o que o move, num pensamento que o livro não deixa em subtexto: Impeço o progresso do jesuitismo e da idolatria, ele pensava.

O adversário devolve a acusação com o mesmo vocabulário de facção: Este se sentiu ultrajado com a insolência, ainda por cima por parte de um jansenistazinho!

Na residência episcopal, a conversa com o bispo de Besançon vira lição de história que Julien não acompanha: O prelado, cada vez mais contente do fim de noite, falou um pouco da história eclesiástica. Notou que Julien não estava entendendo. Passou a comentar o estado moral do Império Romano, na época dos imperadores do século de Constantino. O fim do paganismo viera acompanhado por aquele estado de inquietude e de dúvida que, no século XIX, desola os espíritos tristes e enfadados. Monsenhor observou que Julien mal conhecia o nome de Tácito.

O bispo, encantado com o latim e as odes de Horácio que Julien recita de improviso, presenteia-o com um Tácito e o trata com uma polidez que espanta Julien.

É sugestivo que a polidez mais descuidada que Julien encontra neste capítulo venha de um velho bispo que pouco se preocupa com o que acontecerá dali a dez anos, isto é, de alguém sem mais nada a disputar.

Pirard fica com o primeiro volume do Tácito, cuja dedicatória do bispo será o para-raios de Julien no seminário, e se despede com um aviso em latim sobre o sucessor: Erit tibi, fili mi, successor meus tanquam leo quœrens quem devoret. (Pois para ti, meu filho, meu sucessor será como um leão furioso, e que procura alguém para devorar.)

Para discutir Pirard avisa Julien de que os companheiros jamais o olharão sem odiá-lo e que, se fingirem amá-lo, será para melhor traí-lo. Por que é o homem mais rígido do seminário quem lhe fala com franqueza, e em que essa franqueza difere do cuidado que Julien encontra nos outros?

Para discutir Os pedreiros do claustro lembram que no tempo de Napoleão se tornava oficial quem era pedreiro, e Julien repete a nostalgia deles em voz baixa. O que muda quando o bonapartismo dele deixa de ser gosto de leitor e aparece como sentimento de gente do povo?