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O Vermelho e o Negro · Livro II · Capítulo 10

A rainha Margarida

Resumo do capítulo

Julien Sorel chega ao jantar e vê Mathilde de La Mole de luto fechado, a única de preto na família. O acadêmico lhe conta que é 30 de abril, dia em que Boniface de La Mole e Coconasso foram decapitados na Place de Grève, em 1574, e que a rainha Margarida de Navarra, amante de La Mole, teria enterrado ela mesma a cabeça dele. Nas semanas seguintes, Mathilde passeia com Julien no jardim, lê Brantôme e D'Aubigné e confessa amar o século das guerras da Liga Santa, enquanto Julien oscila entre suspeitar de uma mistificação e achar que ela o corteja.

Mathilde já viu nessa história, antes de Julien chegar à casa, o modelo de amor que aceita: "As guerras da Liga Santa são os tempos heroicos da França [...] Cada um então lutava para conseguir aquilo que desejava [...] Amo aquele século." Ao que Julien completa, sem se dar conta do efeito, "Cujo herói foi Boniface de La Mole". Mathilde responde: "Pelo menos ele foi amado como se deve ser. Que mulher hoje não teria horror de tocar na cabeça do amante decapitado?"

Análise

Mathilde não descobre Julien por acaso: ela já tinha, havia anos, um roteiro pronto (a paixão que desafia a morte, o herói decapitado, a rainha corajosa) e passa os capítulos 1 a 15 do Livro II procurando um ator para o papel que falta. Julien é escolhido porque parece o único homem à sua volta capaz de recusar o script do casamento de conveniência.

O episódio é histórico (D'Aubigné e Brantôme confirmam o amor de Margarida e La Mole, nota 89 do tradutor); a lenda da cabeça enterrada por Margarida é o núcleo que Alexandre Dumas vai transformar, quinze anos depois, em A rainha Margot.

Cap. X. Julien olhando Mathilde: Meu Deus, como é bela! Como seus grandes olhos azuis me agradam, vistos de perto e fitando-me como sempre fazem! Que diferença entre essa primavera e a do ano passado, quando eu vivia infeliz, sustentando-me na força da vontade, em meio a trezentos hipócritas sujos e malvados! Eu era quase tão mau quanto eles.

Cap. X. Nota 88 da edição, sobre a origem histórica da rainha Margarida: Os acontecimentos narrados em seguida são rigorosamente históricos. As aventuras e os amores de La Mole e Coconasso serviram de mote, quinze anos depois de lançado o livro de Stendhal, para o romance A rainha Margot, de Alexandre Dumas.

Para discutir Mathilde, de luto no dia 30 de abril, diz amar o século das guerras da Liga Santa e lamenta que nenhuma mulher de hoje tocaria na cabeça do amante decapitado. O que ela procura numa história de séculos atrás, e o que o presente lhe nega?

Para discutir Julien compara a primavera atual à do ano anterior, vivida entre trezentos hipócritas, e acrescenta: "Eu era quase tão mau quanto eles". O que essa autoavaliação revela do modo como ele julga o próprio passado?