Clavis Libri

O Vermelho e o Negro · Livro II · Capítulo 8

Qual a condecoração mais honrosa

Resumo do capítulo

Julien Sorel volta da propriedade de Villequier, que pertencera a Boniface de La Mole, e encontra a marquesa e Mathilde de La Mole, chegadas de Hyères; já dândi, é de frieza absoluta com ela, que o convida ao baile do duque de Retz. No baile, Mathilde, rodeada de admiradores, discute Rousseau com Julien e se entedia com Croisenois. Ao ver o conde Altamira, condenado à morte, ela formula a máxima de que só a condenação à morte honra um homem e passa a medir os pretendentes por ela, até concluir que a origem nobre tira a força de caráter.

Análise

O baile acontece numa Paris que, na ficção, ainda vive sob a monarquia de Restauração, mas a nota 80 da edição, do editor original, mostra que a página foi composta em 25 de julho de 1830 e só impressa em 4 de agosto, porque a Revolução de Julho estourou no intervalo: o livro descreve uma sociedade que, no momento em que era escrito, já estava caindo.

Mathilde formula, ali, a frase que vai guiar toda a sua conduta no resto dos capítulos 1 a 15 do Livro II:

Acho que só a condenação à morte honra um homem [...], é a única coisa que não se compra.

Mais de um século depois, um comissário soviético cita a frase em Stalingrado, atribuindo-a ao próprio Stendhal, em As Benevolentes - 3 Courante - Stalingrado, de As Benevolentes:

“Conhece o escritor francês Stendhal? Então certamente terá lido esta frase: A meu ver, apenas a condenação à morte enobrece um homem. É a única coisa que não se compra.” (Courante)
As Benevolentes - 3 Courante - Stalingrado

Cap. VIII. Mathilde no baile, medindo os pretendentes: Qual dentre eles, pensava, poderia fazer-se condenar à morte, mesmo supondo todas as condições favoráveis?

Cap. VIII. Mathilde e a sua máxima: Eis aí, pensou Mathilde, uma bela prova de minha máxima: a origem nobre tira a força de caráter sem a qual não é possível fazer-se condenar à morte!

Cap. VIII. Mathilde no baile: Onde está o prazer para mim, acrescentou com tristeza, se, após seis meses de ausência, não o encontro no baile que causa inveja a todas as mulheres de Paris? E ainda por cima estou aqui cercada de todas as homenagens de uma sociedade que não poderia imaginar mais bem-composta. Não há aqui, da burguesia, mais do que alguns pares e talvez um ou dois Julien. E, no entanto, acrescentou com uma tristeza crescente, que vantagens a sorte não me concedeu: ilustração, fortuna, juventude, ai de mim!, tudo, exceto a felicidade.

a porção da alma dos não iniciados em que se localizam as paixões, justamente por ser incontentável e nada reter, comparou a um tonel furado, por isso mesmo que nunca revela saciedade
Górgias
O mito tem dois recipientes furados, e o segundo é o que carrega a água: os não iniciados, no Hades, carregam água para o tonel furado num crivo também cheio de furos. Por esse crivo ele entendia a alma, como me explicou quem me contou a história. Comparou a alma dos insensatos a um crivo que é cheio de furos, pois nada consegue reter, visto carecer de fé e memória.
Górgias
O mito serve a Sócrates para uma escolha entre duas vidas, e a temperança é o nome da que não vaza: Cálicles deveria em vez de uma vida intemperante e insaciável preferires a bem ordenada e que se satisfaz com o que o dia presente lhe oferece
Górgias

Para discutir No baile, Mathilde diz que só a condenação à morte honra um homem, porque é "a única coisa que não se compra". Por que essa lhe parece a única honra verdadeira, e o que a máxima dela deixa de fora?

Para discutir Cercada de homenagens, Mathilde pensa que a sorte lhe deu tudo, "exceto a felicidade". O tédio dela é o de quem tem demais, ou o de quem foi educada para não precisar desejar nada?