Resumo do capítulo
Julien Sorel passa uma hora recortando palavras para a carta anônima, e a Madame de Rênal a recebe dele com uma calma que o assusta e lhe entrega um estojo de joias para enterrar na montanha, caso tudo dê errado. O Monsieur de Rênal passa a noite em claro, imaginando matar a mulher, expulsá-la ou fingir que nada sabe, e conclui que o escândalo lhe sairia caro, entre a herança da tia dela em Besançon e a zombaria de Verrières. De manhã ela o aborda no jardim, entrega a segunda carta como se um desconhecido a tivesse dado, exige a partida de Julien e, insinuando um amorzinho platônico de Valenod por ela e as cartas galantes dele, desvia a fúria do marido para o diretor do asilo, até ele constatar que as cartas e o anônimo estão no mesmo papel. Ela amarra o lenço branco no pombal e, à noite, comunica que Julien terá quinze dias de licença em Verrières, que o marido, a contragosto, reduz a uma semana.
Análise
Entre os amigos que o sr. de Rênal afastou por arrogância está Falcoz, que abriu um jornal liberal, e o narrador nomeia quem cuidou do resto: A congregação resolvera arruiná-lo: seu jornal foi condenado, sua licença de impressor, cancelada.
A resposta que o prefeito deu ao amigo arruinado, e de que hoje se lembra com horror, trata a imprensa como ameaça a ser esmagada: responder como um velho romano: “Se o ministro do rei fizesse a honra de me consultar, eu lhe diria: Arruíne sem piedade todos os impressores da província e faça da imprensa um monopólio como o tabaco”.
O sr. de Rênal passa a noite deliberando entre matar a mulher, expulsá-la ou fingir não saber de nada; vence o cálculo de fortuna e reputação, não a paixão nem o perdão: Estou acostumado com Louise [...]; se eu estivesse livre para me casar amanhã, não encontraria quem a substituísse.
A resolução do caso não é moral, é contábil.
O mesmo devaneio, em que ele chega a examinar a faca de caça, nomeia a rede que o protegeria se o caso chegasse a sangue: O Código Penal está a meu favor e, o que quer que aconteça, nossa congregação e meus amigos do júri me salvarão.
A Congregação não é pano de fundo abstrato: é o mesmo mecanismo, visto de dois ângulos, que cassa a licença de um impressor liberal e que salvaria o marido caso ele decidisse matar a mulher; júri e rede clerical formam, em Verrières, uma engrenagem só.
O sr. de Rênal descarregando a raiva sobre a mulher: Sua negligência, sua preguiça só permitem a atividade da caça às borboletas, criaturas fracas que temos a infelicidade de ter em nossas famílias!… A sra. de Rênal o deixava falar, e ele falou bastante; ele punha a raiva para fora, como dizem na região.
O plano funciona quando o marido, sem que ela precise dizer, chega sozinho à conclusão que ela preparou: a carta anônima impressa e as cartas do Valenod estão escritas no mesmo papel!
O mesmo instinto que a faz confessar a Deus a faz mentir com sangue-frio ao marido; a cena é uma aula de como a hipocrisia de província é coisa de casal, não só de padre.
O narrador diz o que a posição dela explica: É a golpes de desprezo público que um marido mata sua mulher no século XIX, fechando-lhe as portas dos salões.
Para discutir Rênal passa a noite imaginando matar a mulher, expulsá-la ou fingir que nada sabe, e conclui que o escândalo lhe sairia caro. O que a decisão dele mostra sobre o que ele ama e sobre o que o contém?
Para discutir O narrador diz que "é a golpes de desprezo público que um marido mata sua mulher", fechando-lhe as portas dos salões. O que essa frase explica sobre o medo que move tanto a sra. de Rênal quanto o marido?