Resumo do capítulo
O cura Abade Chélan, velho de oitenta anos que tem o direito de visitar a prisão, o hospital e o asilo a qualquer hora, leva o sr. Appert, recomendado pelo Marquês de La Mole, aos três estabelecimentos e lhe pede que não emita opinião diante do carcereiro e dos inspetores; o carcereiro, que recebera ordem de barrar Appert, cede diante do direito do cura, mas lembra que depende do emprego. Rênal e Valenod vão ao presbitério expressar descontentamento, e Chélan, que se diz pronto a ser o terceiro cura de oitenta anos destituído na região, responde com os cinquenta e seis anos que passou na cidade: é a única figura de Verrières que não mede as coisas em dinheiro, e é por isso que perde o cargo. De volta ao passeio, a travessura do segundo filho, que sobe no parapeito do muro, muda o rumo da conversa, e Rênal resolve contratar como preceptor Sorel, o filho do serrador que estuda teologia há três anos: trezentos francos e comida. O argumento é de prestígio, não de afeto: Valenod acaba de comprar dois cavalos normandos e não tem preceptor para os filhos.
Análise
Cap. III. O Monsieur de Rênal, seguido do Valenod, vai à casa do cura expressar descontentamento, e o cura responde com a única medida que tem, a do tempo que passou na cidade:
Há cinquenta e seis anos que estou aqui; batizei quase todos os habitantes da cidade, que não passava de um vilarejo quando cheguei. Faço todos os dias o casamento de jovens cujos avós foram casados por mim. Verrières é minha família
A decisão de contratar Julien Sorel, no capítulo III, nasce menos do afeto que da disputa de prestígio entre os dois homens fortes da cidade: o Valenod está muito orgulhoso dos dois belos cavalos normandos que acaba de comprar para sua caleche. Mas não tem preceptor para os filhos.
O prefeito e o diretor do asilo de mendicidade competem pelos mesmos símbolos de status, cavalos, caleche, preceptor, e cada aquisição de um força a resposta do outro: a política de província, em Verrières, se decide nesse jogo de espelhos entre cargos públicos.
A própria Madame de Rênal, ao pensar no futuro dos filhos, reproduz sem perceber a régua de carreiras fechadas que rege toda a cidade: Gostava do sr. de Rênal sobretudo quando ele lhe falava de seus projetos para os filhos, destinando um deles às armas, o segundo à magistratura e o terceiro à Igreja.
As armas, a magistratura e a Igreja são, na Restauração, as três portas oficiais para um filho de família burguesa, e é a mesma tríade, vista de baixo e sem escolha possível, que Julien vai reduzir a uma só, a batina (ver A farda e a batina), no capítulo 5 do Livro I.
Para discutir Se "dar lucro" é o critério moral de Verrières, o que dizer da hipocrisia de Julien, que também mede tudo por cálculo? A diferença entre os dois é de grau, de consciência do próprio jogo, ou de outra coisa?
Para discutir Diante das queixas de Rênal e de Valenod, o cura Chélan responde com os cinquenta e seis anos em que batizou e casou os moradores e se diz pronto a ser destituído. Que tipo de autoridade é essa, que não se mede em dinheiro, e será que ela basta para proteger quem a tem?