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O Vermelho e o Negro · Livro II · Capítulo 22

A discussão

Análise

Cap. XXII. Esse trecho de Napoleão, tirado de O Memorial de Santa Helena, é a epígrafe do capítulo XXII, "A discussão", e vem assinado "NAPOLEÃO, MEMORIAL":

Em Paris, obtém-se consideração pela carruagem, não pela virtude.

O duque chega, repreende o lacaio e abre a sessão: Julien Sorel recita a primeira página do jornal, é mandado ao aposento vizinho e chamado de volta para anotar o que cada um disser, numa ata que chega a vinte e seis páginas. No meio dela, o narrador interrompe o relato num diálogo fingido entre autor e editor sobre o lugar da política no romance.

"A política", continua o autor, "é uma pedra amarrada no pescoço da literatura e que, em menos de seis meses, a faz submergir. A política, entre os interesses da imaginação, é um tiro de pistola no meio de um concerto. Esse ruído é dissonante sem ser enérgico. Não se harmoniza com o som de nenhum instrumento. Essa política vai ofender mortalmente metade dos leitores e aborrecer a outra metade, que a achou bem mais interessante e vibrante no jornal da manhã." "Se seus personagens não falarem de política", continua o editor, "não serão mais franceses de 1830, e seu livro não será mais um espelho conforme o senhor queria…"

É a chave que autoriza a leitura política do romance inteiro: o próprio livro admite, por dentro, que sem a conspiração do marquês, sem o salão que despreza ideias, sem a carreira que Julien constrói servindo a esse mundo, os personagens deixariam de ser franceses de 1830 e o romance deixaria de ser o espelho que o autor queria construir.

O relator, homem de ar paternal e vários coletes, expõe que a Inglaterra, arruinada pelos quarenta bilhões gastos contra a revolução, já não tem dinheiro para pagar uma nova campanha das potências do continente, e é interrompido por um general que serviu a Napoleão e agora cobiça uma condecoração. O Marquês de La Mole toma a palavra, cobra do general ao menos uma companhia de homens prontos a lutar pela causa e propõe formar em cada departamento uma tropa de quinhentos homens devotados, metade deles fidalgos, paga com um quinto da renda de cada nobre.

É o retrato mais explícito do romance sobre a conspiração ultrarrealista da Restauração: o marquês trata a defesa do trono como questão de tropa própria, e não de ideias.

Que cada um de nós sacrifique um quinto de seus rendimentos para formar essa pequena tropa devotada de quinhentos homens por departamento.

Um clérigo de alta dignidade corta o debate, pedindo que cessem as verdades desagradáveis, e o nome do duque, apresentado como o cirurgião do doente, é enfim dito.

Para discutir No meio da ata, o narrador interrompe o relato para dizer que a política num romance é "um tiro de pistola no meio de um concerto", e o editor responde que sem ela os personagens não seriam mais franceses de sua época. A quem o livro dá razão, e o que essa discussão diz sobre o romance que se está lendo?

Para discutir O marquês propõe formar em cada departamento uma tropa de quinhentos homens devotados, metade deles fidalgos, paga com um quinto da renda de cada nobre. O que o plano revela do que ele entende por defender o trono, e quem fica de fora dessa defesa?