Resumo do capítulo
Julien Sorel chega atrasado ao primeiro dia no seminário (ver O seminário de Besançon), responde à repreensão com um Peccavi, pater optime! e passa a tratar os trezentos e vinte e um colegas como inimigos; escolhe o Abade Pirard por confessor sem saber que isso o põe contra o vice-diretor Castanède. Aos poucos descobre que ali ser o primeiro nos estudos é pecado e que uma cara de fé cega vale mais do que saber, e se dedica a compor uma personalidade nova, até no modo de olhar e de comer. Fouqué o visita e lhe diz que a Madame de Rênal virou devota, enquanto Pirard, sem que ele saiba, intercepta as cartas de Dijon em que a paixão luta com o remorso. Por fim Pirard o convoca por causa de um endereço de Amanda Binet escrito numa carta de baralho que a polícia de Castanède tirou da mala dele, acredita no relato e o previne de que guardar aquilo foi imprudência.
Análise
Julien no seminário, entre inimigos: Seguindo as máximas que se impusera, considerou seus trezentos e vinte e um colegas inimigos, sendo o mais perigoso de todos o abade Pirard. Poucos dias depois, Julien precisou escolher um confessor e lhe apresentaram uma lista. Ah, meu Deus! Por quem me tomam?, ele pensou. Será que acham que não sei onde estou pisando? Escolheu o abade Pirard.
Julien percebe que seus primeiros passos foram equivocados: a ciência e a lógica, que o distinguiram em Verrières, aqui não valem, e o momento em que ele entende a regra do lugar está nesta constatação amarga: Então a ciência não vale nada aqui? [...] Meu único mérito consistia em [...] captar essas baboseiras. [...] E eu era tolo em me orgulhar!
No seminário não se premia quem pensa, premia-se quem obedece sem parecer pensar: Chazel, que sabe mais do que Julien, planta uma asneira em cada composição e fica em quinquagésimo lugar, e se chega ao primeiro, diz Julien, é por distração.
Aos poucos Julien reconstrói a própria personalidade em minúcia: aprende a olhar para baixo, a não se destacar nos estudos, a fingir êxtase onde sente tédio, a treinar até o modo de comer um ovo quente, e falha justamente onde tenta passar despercebido, pois sua insensibilidade à linguiça com chucrute que os colegas devoram lhe rende novos inimigos.
Para discutir Se hipocrisia bem-sucedida exige treinar até o modo de comer um ovo, o que sobra de Julien quando ele finalmente aprender a fazer tudo isso sem esforço?
Para discutir Ao ver que no seminário a ciência vale pouco, Julien pensa: "E eu era tolo em me orgulhar!", falando de sua facilidade em captar baboseiras. O que o seminário premia que Verrières não premiava, e o que Julien perde ou ganha ao descobrir isso?