Resumo do capítulo
Na diligência para Paris, Julien Sorel escuta o bonapartista Falcoz e o filósofo Saint-Giraud, que vende suas terras e foge da província: o vigário o persegue porque ele recusa donativos, e os liberais, porque recusa o voto. Em Paris, Julien chora diante de Malmaison e só no terceiro dia se apresenta ao Abade Pirard.
Análise
A cena se passa às vésperas da Revolução de Julho de 1830: o mesmo evento que, ao explodir quando o livro já estava no prelo, suspendeu a impressão por alguns dias (nota 80 da edição, do editor original, no capítulo VIII).
Saint-Giraud resume o mecanismo que expulsa o homem de bem da província, e Julien, que acabou de deixar Verrières, absorve cada palavra:
Bonaparte, que o céu o fulmine e sua tralha monárquica, tornou possível o reino dos Rênal e dos Chélan, que trouxe o reino dos Valenod e dos Maslon.
Pirard explica a vida que o espera na casa do Marquês de La Mole: secretário a cem luíses de ordenado, com estudos de teologia três vezes por semana. Avisa que o conde Norbert, filho do marquês, o desprezará por ser um pequeno-burguês, e que a marquesa, filha do velho duque de Chaulnes, só dá valor a ancestrais que foram às Cruzadas.
Cap. I. O Abade Pirard descrevendo a família de La Mole: Ele tem dois filhos, uma filha e um filho de dezenove anos, elegante por excelência, um extravagante que nunca sabe ao meio-dia o que fará às duas horas.
O ancestral que dá nome à família é histórico: Boniface de La Mole, decapitado por conspiração em 1574 (nota 88 da edição, no capítulo X confirma o rigor histórico do episódio, retomado por Dumas quinze anos depois de Stendhal).
O ancestral dele era da corte e teve a honra de ter a cabeça cortada na Place de Grève, no dia 26 de abril de 1574, por causa de uma intriga política. O senhor é filho de um carpinteiro de Verrières e, ainda por cima, a serviço do pai dele.
A carruagem para diante da mansão de La Mole, com o nome da família gravado em mármore negro sobre a porta.
O primeiro juízo político de Julien sobre a nobreza parisiense chega antes de qualquer jantar de salão, na própria porta da mansão, onde o nome da família está gravado em mármore negro para que ninguém tenha dúvida de quem mora ali.
Tal ostentação desagradou a Julien. Eles têm tanto medo dos jacobinos! Veem um Robespierre e sua carroça atrás de cada sebe; estão sempre zombando de tudo e exibem dessa forma sua casa para que a canalha a reconheça, em caso de tumulto, e a pilhe.
A classe que Julien vai servir daqui a poucas páginas como secretário, e mais tarde como emissário de uma conspiração, vive instalada sobre um medo concreto: o de uma segunda Revolução Francesa, vinte anos depois da primeira. A Restauração devolveu o nome de mármore à porta, mas não devolveu a segurança de quem o leva.
Para discutir Na diligência, Saint-Giraud diz que Bonaparte "tornou possível o reino dos Rênal e dos Chélan, que trouxe o reino dos Valenod e dos Maslon". Que cadeia de causas ele traça, e como Julien, que venera Napoleão, pode receber essa conta?
Para discutir Diante do nome da família gravado em mármore negro sobre a porta da mansão, Julien pensa: "Eles têm tanto medo dos jacobinos!". Como esse medo explica o jeito de essa gente se exibir, e o que ele revela sobre o mundo em que Julien vai servir?