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O Vermelho e o Negro · Livro II · Capítulo 35

Uma tormenta

Resumo do capítulo

O Abade Pirard entrega a Julien Sorel vinte mil francos do Marquês de La Mole e uma versão da origem dele em que o pai verdadeiro fica de fora. Em Estrasburgo, tenente do décimo quinto regimento de hussardos, Julien impõe respeito pela impassibilidade, já calcula o posto seguinte e manda quinhentos francos ao Abade Chélan para os pobres. Um bilhete de Mathilde de La Mole ("Tudo está perdido") o faz correr até Paris, onde ela lhe mostra a carta do marquês, que recusa o casamento com quem seduz uma moça por ser rica, e a carta da Madame de Rênal, escrita em resposta ao pedido de informações. Julien diz que o marquês é justo, deixa Mathilde na rua e parte para Verrières. Julien não responde por carta: compra pistolas, entra na igreja de Verrières (ver A igreja de Verrières) durante a missa e atira duas vezes na mulher que mais amou, errando o primeiro tiro; no segundo, ela cai.

Análise

Junto com os vinte mil francos do marquês, o Abade Pirard traz a fórmula que apaga o pai da biografia nova: o Sorel pai passa a ser só o carpinteiro que cuidou do menino.

O sr. de La Vernaye talvez julgue conveniente dar um presente ao sr. Sorel, carpinteiro em Verrières, que cuidou dele em sua infância

Em Estrasburgo, dois dias depois da patente, a vitória já não basta: Mal se tornara tenente, por favor e havia dois dias, já calculava que para ser comandante em chefe aos trinta anos, ao mais tardar, como todos os grandes generais, era necessário ser mais do que tenente aos vinte e três anos.

a porção da alma dos não iniciados em que se localizam as paixões, justamente por ser incontentável e nada reter, comparou a um tonel furado, por isso mesmo que nunca revela saciedade
Górgias

O enredo de Stendhal aqui se apoia num fato real do noticiário francês dos anos 1820, o caso Antoine Berthet, cujo processo Stendhal leu na Gazette des Tribunaux e que lhe serviu de inspiração para Julien (nota 110 da edição). Para não tocar na vida privada, explica a nota final do próprio livro, o autor inventou uma cidadezinha, Verrières, e pôs o bispo, o júri e o tribunal em Besançon, cidade real onde nunca esteve.

Pobre e ambicioso, foi com a ajuda da mais consumada hipocrisia e pela sedução de uma mulher fraca e infeliz, que esse homem tentou alcançar uma posição e chegar a ser alguém.

A igreja está como Julien a viu no capítulo 5 do Livro I, no dia do papel sobre Louis Jenrel: as janelas cobertas de carmesim.

Julien entrou na igreja nova de Verrières. Todas as janelas altas do edifício estavam veladas por cortinas carmesim.

O tiro não é vingança fria, é o único ato do livro inteiro sem cálculo algum: a mão treme antes, "não posso, dizia consigo mesmo, fisicamente, não posso". É a explosão do que Julien reprimiu havia anos, e é também o gesto que destrói de vez a possibilidade de ascensão social, a única coisa que ele perseguira até ali.

Julien não a reconhecia mais tão bem; atirou uma vez e errou; atirou uma segunda vez, ela caiu.

Para discutir A versão da origem de Julien combinada com o marquês deixa de fora o pai verdadeiro: Sorel passa a ser só o carpinteiro que cuidou do menino. O que a nova biografia compra, e o que ela apaga?

Para discutir Depois de ler a carta que o descreve como "pobre e ambicioso" que tentou subir "com a ajuda da mais consumada hipocrisia", Julien compra pistolas e vai à igreja de Verrières. Por que ele responde com um tiro, e o que o gesto mostra sobre o limite do cálculo que o guiou até ali?