Clavis Libri

O Vermelho e o Negro

Citações

As passagens que decidem cada capítulo, com o comentário que as acompanha.

Livro I, capítulo 1: Uma cidadezinha

Cap. I. O narrador, sobre a opinião na província: tirania da opinião, e que opinião!, é tão burra nas cidadezinhas da França quanto nos Estados Unidos da América.

Livro I, capítulo 2: Um prefeito

O narrador entrega a chave da cidade numa única frase maiúscula, que funciona como epígrafe interna do capítulo II: Eis a grande palavra que decide tudo em Verrières: DAR LUCRO. Por si só representa o pensamento habitual de mais de três quartos dos habitantes.

O asilo de mendicidade que o Valenod dirige em Verrières é instituição real da época: Os abrigos para mendigos, criados por Luís XVI e extintos com a Revolução, foram revividos com Napoleão, em 1808, e paulatinamente abolidos com a Restauração. Em 1830, havia somente seis no país.

Livro I, capítulo 3: Um cura

Há cinquenta e seis anos que estou aqui; batizei quase todos os habitantes da cidade, que não passava de um vilarejo quando cheguei. Faço todos os dias o casamento de jovens cujos avós foram casados por mim. Verrières é minha família

A decisão de contratar Julien Sorel, no capítulo III, nasce menos do afeto que da disputa de prestígio entre os dois homens fortes da cidade: o Valenod está muito orgulhoso dos dois belos cavalos normandos que acaba de comprar para sua caleche. Mas não tem preceptor para os filhos.

A própria Madame de Rênal, ao pensar no futuro dos filhos, reproduz sem perceber a régua de carreiras fechadas que rege toda a cidade: Gostava do sr. de Rênal sobretudo quando ele lhe falava de seus projetos para os filhos, destinando um deles às armas, o segundo à magistratura e o terceiro à Igreja.

Livro I, capítulo 4: Um pai e um filho

olhou tristemente o riacho onde caíra o livro; de todos, era o que mais prezava, o Memorial de Santa Helena.

Livro I, capítulo 5: Uma negociação

O capítulo V retrocede e explica a formação de Julien: o velho cirurgião-mor da Legião de Honra, veterano das campanhas napoleônicas na Itália, foi seu único mestre de afeto, e lhe deixou os livros; os três em que Julien crê são as Confissões de Rousseau, os boletins do Grande Exército e o Memorial de Santa Helena ("corão" é o Alcorão, a escritura dele): A coleção de boletins do Grande Exército e o Memorial de Santa Helena completavam seu corão. Ele se deixaria matar por essas três obras. Nunca acreditara em nenhuma outra.

Cap. V. Na negociação do salário do filho, o Sorel pai leva a melhor sobre o prefeito: a astúcia do camponês venceu a astúcia do homem rico, que não precisa dela para viver.

O episódio das colunas de mármore nomeia o poder que decide essa disputa: tornaram-se célebres na região, pelo ódio mortal que suscitaram entre o juiz de paz e o jovem vigário enviado de Besançon, tido como espia da congregação.

A construção da igreja e as sentenças do juiz de paz de súbito o esclareceram

A frase que resume o eixo do livro inteiro não usa as palavras "vermelho" e "negro", mas é elas: Hoje em dia vemos padres de quarenta anos recebendo cem mil francos de vencimentos, ou seja, três vezes mais do que os famosos generais de divisão de Napoleão. [...] É preciso ser padre.

Antes disso, no mesmo capítulo, vem a explicação do método: A palavra surpreende os leitores? Até chegar a essa palavra horrível, a alma do jovem camponês teve de percorrer um bom caminho.

Uma passagem breve, quase perdida no meio do capítulo, funciona como presságio: na igreja de Verrières (ver A igreja de Verrières), Julien encontra um papel de jornal esquecido no genuflexório, sobre a execução de um certo Louis Jenrel, anagrama do próprio nome de Julien Sorel. Detalhes da execução e dos últimos momentos de Louis Jenrel, executado em Besançon no dia…

Julien reage com uma frase que soa a presságio: Pobre infeliz [...], seu nome acaba como o meu…

Ao sair, Julien acreditou ver sangue perto da pia de água benta; era a água que se derramara: o reflexo das cortinas vermelhas que cobriam as janelas fazia com que parecesse sangue.

Livro I, capítulo 6: O tédio

O próprio Julien registra, sem dramatizar, a régua que vai usar dali por diante: Que diferença em relação a mim, pensou Julien. Ontem mesmo meu pai me bateu. Como essa gente rica é feliz!

Cap. VI. No primeiro encontro, Julien usa a vocação como escudo contra o exame de latim do Monsieur de Rênal: O amor-próprio do sr. de Rênal o deixava inquieto; em vez de pensar em examinar o preceptor, concentrava-se em procurar na memória algumas palavras latinas; finalmente pôde dizer um verso de Horácio. Julien só sabia o latim de sua Bíblia. Respondeu franzindo as sobrancelhas: — O santo ministério a que me destino proibiu-me de ler poeta tão profano.

Livro I, capítulo 7: As afinidades eletivas

O narrador resume o preceptor em uma frase que é também um diagnóstico de personagem: As crianças o adoravam, ele não gostava delas; seu pensamento estava em outro lugar. [...] Frio, justo, impassível e contudo amado, porque sua chegada de alguma forma expulsara o tédio da casa, foi um bom preceptor.

Cap. VII. A sra. de Rênal e o marido diante da pobreza de Julien: o nome de Julien e a sensação de uma alegria pura e intelectual eram sinônimos para ela. Atormentada pela ideia da pobreza do rapaz, a sra. de Rênal falou com o marido sobre presenteá-lo com roupas: — Que bobagem! — ele respondeu. — Que nada! Dar presentes a um homem com o qual estamos absolutamente satisfeitos? E que nos serve direito? Só se ele se tornasse negligente seria necessário estimular seu zelo.

Cap. VII. O narrador sobre a formação sentimental da sra. de Rênal: A sra. de Rênal, rica herdeira de uma tia devota, casada aos dezesseis anos com um bom fidalgo, nunca na vida sentira ou vira nada que se parecesse minimamente com o amor.

O bom cura Chélan, seu confessor, fora o único que lhe falara do amor, a propósito do assédio do sr. Valenod, e lhe pintara um quadro tão repugnante que para ela a palavra representava a mais abjeta libertinagem.

Livro I, capítulo 8: Pequenos acontecimentos

Cap. VIII. Quando Julien recusa casar com Élisa, a criada: A sra. de Rênal já não ouvia nada; o excesso de felicidade quase lhe tirava o uso da razão. Fez a moça confirmar várias vezes que Julien a rejeitara definitivamente e que não reconsideraria a resolução mais sensata.

Cap. VIII. A ideia que a sra. de Rênal fazia das paixões: ela pensava nas paixões como nós pensamos na loteria: engodo certo e felicidade buscada por loucos.

Cap. VIII. Julien lendo às escondidas o livro que o guia: Quando o sr. de Rênal estava na cidade, o que acontecia com frequência, arriscava-se a ler; dentro de pouco tempo, em vez de ler à noite, e tomando o cuidado de esconder a lâmpada num vaso de flores emborcado, pôde se entregar ao sono; de dia, no intervalo das lições das crianças, ia aos rochedos com o livro que era sua única regra de conduta e objeto exclusivo de seu arrebatamento. Encontrava nele, a um só tempo, felicidade, êxtase e consolo nas horas de desânimo.

Livro I, capítulo 9: Uma noite no campo

Cap. IX. Na noite no jardim, depois de segurar a mão da sra. de Rênal: — Para falar a verdade, estou me sentindo um pouco indisposta, mas o ar fresco me faz bem. Essas palavras confirmaram a felicidade de Julien, que nesse momento era extrema: falou, esqueceu de fingir, pareceu um homem amabilíssimo às duas amigas que o escutavam.

Cap. IX. Na mesma noite, do lado dela: Quanto à sra. de Rênal, de mãos dadas com Julien, esta não pensava em nada, deixava-se viver.

Cap. IX. Diante da grosseria do marido: Pela primeira vez na vida a sra. de Rênal sentiu uma espécie de desejo de vingança contra o marido.

Cap. IX. Julien queimando o retrato de Napoleão escondido no colchão: Toda a minha reputação destruída, aniquilada num segundo!, pensava Julien enquanto via a caixa queimar, e minha reputação é o meu único bem, é só por ela que vivo… E ainda assim, que vida, meu Deus!

Livro I, capítulo 10: Um grande coração

Cap. X. Depois de arrancar o aumento, Julien sobe ao bosque e dá nome ao que fez no vocabulário do chefe que admira, a guerra: Ganhei uma batalha, disse a si mesmo tão logo se viu no bosque e longe do olhar dos homens. Ganhei uma batalha!

Livro I, capítulo 11: Uma noite

A ameaça que paira sobre o Monsieur de Rênal não é só de fortuna, é política: O sr. de Rênal falava de política com raiva: dois ou três industriais de Verrières estavam se tornando decididamente mais ricos do que ele e queriam enfrentá-lo nas eleições.

Cap. XI. A sra. de Rênal, já sem culpa diante do marido: Que importam a meu marido os sentimentos que eu possa nutrir por esse rapaz?

Livro I, capítulo 12: Uma viagem

Com a cabeça apoiada nas mãos, Julien sentiu-se mais feliz na gruta do que jamais fora em toda a vida, agitado pelos devaneios e pelo gozo da liberdade.
Ora, eu perderia covardemente sete ou oito anos! Chegaria assim aos vinte e oito, mas, com essa idade, Bonaparte já havia realizado seus maiores feitos!

Livro I, capítulo 13: As meias rendadas

Cap. XIII. O narrador sobre o que isolava Julien do mundo: Sua vida solitária, feita de imaginação e desconfiança, afastara-o de tudo o que podia esclarecê-lo.

Cap. XIII. Julien desconfiando da sra. de Rênal: Sabe Deus quantos amantes já não teve! Talvez só se decida a meu favor por causa da facilidade dos encontros.

Livro I, capítulo 14: A tesoura inglesa

Seu orgulho não queria deixar nada ao acaso, nem à inspiração do momento. De acordo com as confidências de Fouqué e com o pouco que lera sobre o amor em sua Bíblia, traçou um plano de campanha bastante detalhado.
“O amor cria igualdades e não as procura”

Livro I, capítulo 15: O canto do galo

Meu Deus! Ser feliz, ser amado, é só isto?

A pergunta de Julien, ao sair do quarto, não é retórica: é o primeiro sinal de que a ambição que o move não sabe o que fazer diante do próprio sucesso. A cena termina não em êxtase, mas em autoavaliação de desempenho: E que papel? O de homem acostumado a ser brilhante com as mulheres.

Livro I, capítulo 16: O dia seguinte

Em poucos dias o cálculo cede, e o narrador marca a virada com uma frase que resume todo o livro: Seu amor ainda era ambição; era a alegria de ele, pobre criatura infeliz e tão desprezada, possuir uma mulher tão nobre e tão bela..

Livro I, capítulo 17: O primeiro-adjunto

O arroubo de Julien, que ele precisa desmentir na hora: como Napoleão foi mesmo o homem enviado por Deus para os jovens franceses! Quem vai substituí-lo?

O franzir de sobrancelhas mostra a Julien de que lado ela foi educada: Ela é boa e gentil, tem por mim uma afeição viva, mas foi criada em campo inimigo.

A intriga que Julien enfim decifra vale mais, aos olhos dele, do que a batalha de Fontenoy: Tratava-se de fazer do sr. de Moirod — o homem mais devoto da região — o primeiro e não o segundo-adjunto do prefeito de Verrières.

Livro I, capítulo 18: Um rei em Verrières

O anúncio da visita do rei mobiliza Verrières num só golpe: Em 3 de setembro, às dez horas da noite, um guarda despertou a cidade de Verrières ao subir a rua principal a galope; trazia a notícia de que sua majestade, o rei de ***, chegaria no domingo seguinte, e já era terça-feira. O governador autorizava, isto é, requisitava a formação de uma guarda de honra; era preciso ostentar toda a pompa possível.

A Madame de Rênal usa toda a influência que tem para tirar Julien das roupas pretas (ver A farda e a batina) por um dia, e consegue mais do que imaginava: obteve primeiro do sr. Moirod, e em seguida do subgovernador de Maugiron, que Julien fosse nomeado guarda de honra em prejuízo de cinco ou seis filhos de fabricantes muito abastados, e dos quais pelo menos dois eram de uma piedade exemplar.

A mesma cerimônia leva Julien à antiga abadia de Bray-le-Haut, onde a Restauração encena o culto ao trono e ao altar ao mesmo tempo: o rei de *** não queria passar em Verrières sem visitar a famosa relíquia de são Clemente conservada em Bray-le-Haut, a uma légua apenas da cidade.

O ódio entre o clero ultrarrealista e o jansenismo, que vai definir todo o seminário de Besançon (ver O seminário de Besançon), já aparece aqui em ponto pequeno, na recusa do padre Maslon a receber o cura Abade Chélan no cortejo: — Estarei desonrado aqui e em Besançon — o padre Maslon respondeu — se ele aparecer em meu clero. Um jansenista, santo Deus!

Antes do cortejo, Julien surpreende o jovem bispo de Agde treinando o gesto que vai fazer diante do rei: O rei de *** está acostumado com um clero venerável e sem dúvida muito grave. Eu não queria parecer muito leviano, sobretudo devido à idade.

Na igreja, diante do rei ajoelhado, a cerimônia chega ao êxtase religioso e político ao mesmo tempo: Houve um Te Deum, nuvens de incenso, infinitas descargas de mosquetes e de artilharia; os camponeses estavam ébrios de felicidade e devoção. Um dia assim desfaz a obra de cem números de jornais jacobinos.

Diante da relíquia, o jovem bispo de Agde fecha a visita com um sermão às moças ajoelhadas: o bispo de Agde pediu ao rei permissão para falar. Concluiu com palavras simples um pequeno discurso muito comovente, garantindo assim o melhor efeito. — Não esqueçam jamais, jovens cristãs, que viram um dos maiores reis da terra ajoelhar-se perante os servos deste Deus todo-poderoso e terrível. Fracos, perseguidos, assassinados sobre a terra, como veem pela chaga de são Clemente, que ainda sangra, os servos triunfam no céu.

Livro I, capítulo 19: Pensar faz sofrer

Cholin, súdito de Verrières, escreve ao Marquês de La Mole para pedir emprego pela lealdade demonstrada, não pelo mérito: Peço ao senhor marquês a agência de loteria de Verrières, que em breve certamente estará vaga de um modo ou de outro, já que o titular se acha muito doente e, aliás, vota mal nas eleições etc.

Com a doença do filho, o remorso da sra. de Rênal: a sra. de Rênal de repente sucumbiu a um terrível remorso. Pela primeira vez, censurou-se firmemente por seu amor; pareceu compreender, como por milagre, o logro enorme a que se deixara arrastar. Embora de um caráter profundamente religioso, até então ela não pensara na dimensão de seu crime aos olhos de Deus.

Julien diante desse remorso: É sem dúvida o remorso que a mata; isso, sim, é grandeza de sentimentos. Mas pobre como sou, pouco instruído, tão ignorante, às vezes tão grosseiro em meus modos, como pude inspirar tamanho amor?

Livro I, capítulo 20: As cartas anônimas

A sra. de Rênal deixa de ser personagem passiva e passa a estrategista da própria sobrevivência: O único objetivo de minha conduta é fazer meu marido pensar que a carta vem do sr. Valenod

A mulher que um capítulo antes se via condenada passa a dar ordens com precisão de ofício: É você quem vai providenciar a carta anônima; arme-se de paciência e de uma tesoura.

Livro I, capítulo 21: Diálogo com um mestre

Entre os amigos que o sr. de Rênal afastou por arrogância está Falcoz, que abriu um jornal liberal, e o narrador nomeia quem cuidou do resto: A congregação resolvera arruiná-lo: seu jornal foi condenado, sua licença de impressor, cancelada.

A resposta que o prefeito deu ao amigo arruinado, e de que hoje se lembra com horror, trata a imprensa como ameaça a ser esmagada: responder como um velho romano: “Se o ministro do rei fizesse a honra de me consultar, eu lhe diria: Arruíne sem piedade todos os impressores da província e faça da imprensa um monopólio como o tabaco”.

O sr. de Rênal passa a noite deliberando entre matar a mulher, expulsá-la ou fingir não saber de nada; vence o cálculo de fortuna e reputação, não a paixão nem o perdão: Estou acostumado com Louise [...]; se eu estivesse livre para me casar amanhã, não encontraria quem a substituísse.

O mesmo devaneio, em que ele chega a examinar a faca de caça, nomeia a rede que o protegeria se o caso chegasse a sangue: O Código Penal está a meu favor e, o que quer que aconteça, nossa congregação e meus amigos do júri me salvarão.

O sr. de Rênal descarregando a raiva sobre a mulher: Sua negligência, sua preguiça só permitem a atividade da caça às borboletas, criaturas fracas que temos a infelicidade de ter em nossas famílias!… A sra. de Rênal o deixava falar, e ele falou bastante; ele punha a raiva para fora, como dizem na região.

O plano funciona quando o marido, sem que ela precise dizer, chega sozinho à conclusão que ela preparou: a carta anônima impressa e as cartas do Valenod estão escritas no mesmo papel!

O narrador diz o que a posição dela explica: É a golpes de desprezo público que um marido mata sua mulher no século XIX, fechando-lhe as portas dos salões.

Livro I, capítulo 22: Maneiras de agir em 1830

No almoço na casa de Valenod, diretor do asilo de mendicidade: Julien, já muito pouco à vontade, pensou que do outro lado da parede da sala de jantar se encontravam pobres detentos cuja porção de carne talvez tivesse sido subtraída para comprar todo esse luxo de mau gosto com o qual queriam aturdi-lo. Talvez tenham fome agora mesmo, disse consigo mesmo; ficou com o coração apertado, não pôde comer e quase não conseguiu falar.

Não estão mais cantando aquela canção desagradável. [...] Ora, com certeza! [...] mandei calar os vagabundos.

O narrador mostra como Valenod montou o poder que disputa o preceptor com o prefeito: Deem-me os dois mais tolos dentre vocês; aos homens da lei: Indiquem-me os dois mais ignaros; aos funcionários da saúde: Designem os dois maiores charlatões. Quando conseguira reunir os mais descarados de cada ofício, dissera-lhes: Reinemos juntos.

Livro I, capítulo 23: Dissabores de um funcionário

O narrador abre o capítulo, sobre o prefeito e os homens como ele, com um aforismo: Infeliz quem se distingue!

O cantor que ganha sessenta mil francos por uma esperteza de teatro faz Julien trocar de inveja: Por Deus, eu bem que achava melhor ser um Geronimo do que um Rênal.

A última noite, que ela supõe ser a derradeira, deixa Julien desolado: Julien espantou-se com os abraços sem calor daquele cadáver vivo; não conseguiu pensar em outra coisa durante muitas léguas.

Livro I, capítulo 24: Uma capital

A primeira imagem de Besançon já traz a fantasia militar, o vermelho do título, contra o hábito que o espera: Quanta diferença para mim, disse suspirando, se chegasse a essa nobre cidade para ser subtenente num dos regimentos encarregados de defendê-la!

Sem padrinhos e sem dinheiro, o seminário já lhe parece uma cela: Para um pobre-diabo como eu, pensou Julien, sem padrinhos e sem dinheiro, não deve haver muita diferença entre o seminário e a prisão

Livro I, capítulo 25: O seminário

A chegada de Julien ao seminário, diante do Abade Pirard: O homem não notou a presença de Julien. Que se mantinha imóvel, de pé no meio do quarto, onde o deixara o porteiro, que ao sair fechou a porta. Dez minutos se passaram; o homem malvestido ainda escrevia. A emoção e o terror de Julien eram tamanhos que ele sentia que poderia desabar a qualquer momento. Um filósofo teria dito, enganando-se talvez: Eis a violenta impressão da feiura sobre uma alma feita para amar o que é belo.

O exame de teologia com o abade Pirard: O abade Pirard submeteu Julien a um exame em teologia, e ficou surpreso com a extensão de seus conhecimentos. Seu espanto aumentou quando o interrogou sobre a Sagrada Escritura. Mas, quando chegou às questões sobre as doutrinas dos Padres da Igreja, percebeu que Julien mal conhecia os nomes de são Jerônimo, santo Agostinho, são Boaventura, são Basílio etc. etc. Com efeito, pensou o abade Pirard, eis aí a tendência fatal ao protestantismo que sempre reprovei em Chélan. Um conhecimento profundo e demasiado profundo da Sagrada Escritura.

Livro I, capítulo 26: O mundo ou o que falta ao rico

Julien no seminário, entre inimigos: Seguindo as máximas que se impusera, considerou seus trezentos e vinte e um colegas inimigos, sendo o mais perigoso de todos o abade Pirard. Poucos dias depois, Julien precisou escolher um confessor e lhe apresentaram uma lista. Ah, meu Deus! Por quem me tomam?, ele pensou. Será que acham que não sei onde estou pisando? Escolheu o abade Pirard.

Julien percebe que seus primeiros passos foram equivocados: a ciência e a lógica, que o distinguiram em Verrières, aqui não valem, e o momento em que ele entende a regra do lugar está nesta constatação amarga: Então a ciência não vale nada aqui? [...] Meu único mérito consistia em [...] captar essas baboseiras. [...] E eu era tolo em me orgulhar!

Livro I, capítulo 27: Primeira experiência da vida

O desânimo de Julien no seminário (ver O seminário de Besançon): Poderia se tornar professor de latim; precisava de tão pouco para sua subsistência! Mas então, adeus carreira, adeus o futuro de sua imaginação: era como morrer. Eis os detalhes de um de seus tristes dias.

Escute aqui: cada um por si neste mundo, não quero ser atingido pelo raio; Deus pode fulminá-lo como a um ímpio, como a um Voltaire.

O hábito de raciocinar, que ninguém avisou a Julien ser um crime: Após ter lhe incutido o hábito de raciocinar corretamente e de não se contentar com palavras vãs, não teve o cuidado de lhe dizer que, em quem não é muito considerado, esse hábito é um crime; pois todo bom raciocínio ofende.

apelidaram-no MARTINHO LUTERO; sobretudo, diziam, por causa dessa lógica infernal de que se orgulhava tanto.

Livro I, capítulo 28: Uma procissão

A exceção humana nesse mundo é o padre Chas-Bernard, diretor do cerimonial, cuja vaidade de ofício (as vestes, os castiçais, os paramentos da catedral) é ingênua e sincera, não calculada. Julien, treinado a farejar segundas intenções em todo mundo, espera o golpe que nunca vem, e conclui: E, contudo, ele trabalhou muito, está feliz [...]. Que homem! Que exemplo para mim!

A sra. Derville, que sempre desconfiou do caso, diz a Julien o que ele passou a ser para a mulher que ama: Sua presença deve causar-lhe horror, ela era tão feliz antes de conhecê-lo!

Livro I, capítulo 29: A primeira promoção

Pirard, apesar da severidade, é quem trata Julien sem cálculo: aceitou-o por causa de Abade Chélan, advertiu-o contra as sociedades secretas e agora o avisa sem rodeios. É ele, o mais rígido de todos, quem primeiro diz a Julien a verdade sobre o que o espera: seus companheiros jamais o olharão sem odiá-lo; se fingirem amá-lo, será para melhor traí-lo.

Julien ouve por acaso, no jardim, os pedreiros do claustro comentarem o recrutamento, e a conversa deles nomeia sem rodeios o que a Restauração fechou: No tempo do outro, aí sim! Um pedreiro se tornava oficial, se tornava general, a gente via isso acontecer.

Ao se afastar, Julien repete baixinho a mesma nostalgia dos pedreiros, prova de que seu bonapartismo não é peculiaridade de leitura, é sentimento vivo na rua: O único rei de que o povo se lembra!

O alcance da rede que arma essa vingança é descrito sem meias palavras: aquele homem hábil que organizara tão sabiamente a rede da congregação de Besançon e cujas missivas para Paris faziam tremer juízes, o governador e até os oficiais da guarnição, escrevesse, de próprio punho, o número 198 ao lado do nome de Julien.

O próprio abade Pirard nomeia o que o move, num pensamento que o livro não deixa em subtexto: Impeço o progresso do jesuitismo e da idolatria, ele pensava.

O adversário devolve a acusação com o mesmo vocabulário de facção: Este se sentiu ultrajado com a insolência, ainda por cima por parte de um jansenistazinho!

Na residência episcopal, a conversa com o bispo de Besançon vira lição de história que Julien não acompanha: O prelado, cada vez mais contente do fim de noite, falou um pouco da história eclesiástica. Notou que Julien não estava entendendo. Passou a comentar o estado moral do Império Romano, na época dos imperadores do século de Constantino. O fim do paganismo viera acompanhado por aquele estado de inquietude e de dúvida que, no século XIX, desola os espíritos tristes e enfadados. Monsenhor observou que Julien mal conhecia o nome de Tácito.

Pirard fica com o primeiro volume do Tácito, cuja dedicatória do bispo será o para-raios de Julien no seminário, e se despede com um aviso em latim sobre o sucessor: Erit tibi, fili mi, successor meus tanquam leo quœrens quem devoret. (Pois para ti, meu filho, meu sucessor será como um leão furioso, e que procura alguém para devorar.)

Livro I, capítulo 30: Um ambicioso

Antes de rever a sra. de Rênal, Julien só vê no aviso de Fouqué a pequenez de um burguês provinciano: Julien só viu em tudo aquilo a pequenez de espírito de um burguês provinciano. Ia finalmente atuar no palco dos grandes acontecimentos.

Na escuridão do quarto, o amor de Julien vira cálculo outra vez: ele teve a desventura de se transformar num político frio, quase tão calculista e tão frio como quando, no pátio do seminário, era alvo de alguma brincadeira maldosa de um colega mais forte que ele.

O narrador pesa o preço da vitória: Se a volta aos sentimentos ternos e o eclipse dos remorsos da sra. de Rênal tivessem chegado um pouco antes, teriam sido uma felicidade divina; obtidos assim, mediante artifício, não passaram de um prazer.

Livro II, capítulo 1: Os prazeres do campo

Bonaparte, que o céu o fulmine e sua tralha monárquica, tornou possível o reino dos Rênal e dos Chélan, que trouxe o reino dos Valenod e dos Maslon.

Cap. I. O Abade Pirard descrevendo a família de La Mole: Ele tem dois filhos, uma filha e um filho de dezenove anos, elegante por excelência, um extravagante que nunca sabe ao meio-dia o que fará às duas horas.

O ancestral dele era da corte e teve a honra de ter a cabeça cortada na Place de Grève, no dia 26 de abril de 1574, por causa de uma intriga política. O senhor é filho de um carpinteiro de Verrières e, ainda por cima, a serviço do pai dele.
Tal ostentação desagradou a Julien. Eles têm tanto medo dos jacobinos! Veem um Robespierre e sua carroça atrás de cada sebe; estão sempre zombando de tudo e exibem dessa forma sua casa para que a canalha a reconheça, em caso de tumulto, e a pilhe.

Livro II, capítulo 2: Ingresso na sociedade

Cap. II. Na biblioteca do palácio de La Mole: Terminada a tarefa, Julien ousou se aproximar dos livros: quase enlouqueceu de alegria ao encontrar uma edição de Voltaire.

Livro II, capítulo 3: Os primeiros passos

Cap. III. Julien, depois da cavalgada e do jantar: Apesar de tanta bondade, Julien sentiu-se logo totalmente isolado no meio dessa família. Todos os hábitos lhe pareciam estranhos e ele não conseguia assimilá-los. Suas trapalhadas faziam a alegria dos criados.

Cap. III. O padre Pirard, ao partir para a paróquia: Se Julien for um frágil caniço, que se quebre; se for um homem de caráter, que se arranje sozinho

Livro II, capítulo 4: A mansão de La Mole

Cap. IV. Os anfitriões do palácio de La Mole: No fundo, os anfitriões experimentavam muito orgulho e muito tédio; estavam acostumados à maledicência para se distrair, para que pudessem esperar verdadeiros amigos.

Não há cem mil escudos de renda nem condecoração que possa lutar contra essa norma de salão. Uma ideia viva, mínima que fosse, parecia uma grosseria.

Cap. IV. A opinião como tirano, numa fala de salão: Por que querem que eu tenha hoje a mesma opinião de três semanas atrás? Nesse caso, minha opinião seria meu tirano.

Cap. IV. No salão de La Mole: Isso é mesmo um covil — dizia, como Basílio67 —, só vejo entrar gente viciosa.

Livro II, capítulo 5: A sensibilidade e uma grande piedade

Cap. V. Epígrafe do capítulo, atribuída a Faublas: Uma ideia mais viva parece uma grosseria, tal nos acostumamos com palavras vazias. Infeliz daquele que inventa ao falar! FAUBLAS70

Cap. V. O que a religião significava para Julien: Julien surpreendeu-se; a ideia de religião estava indiscutivelmente ligada, em seu espírito, à hipocrisia e à esperança de ganhar dinheiro.

Cap. V. As aulas de equitação em Paris: Quando dispunha de algum tempo livre, em vez de empregá-lo a ler como antigamente, corria ao treino de equitação e pedia os cavalos mais manhosos. Nos passeios com o mestre de equitação, era quase invariavelmente jogado ao chão.

Cap. V. O narrador sobre os ricos de alma elevada: Os homens ricos que têm a alma elevada buscam nos negócios o divertimento, não os resultados.

Livro II, capítulo 6: Modo de pronunciar

Esses senhores, ainda que muito nobres, pensou Julien, não são enfadonhos como as pessoas que vão jantar na mansão do sr. de La Mole; e percebo por quê, [...] Eles se permitem ser indecentes.

Livro II, capítulo 7: Uma crise de gota

Se é possível apegar-se a um belo cocker spaniel, pensava o marquês, por que me envergonho tanto de me apegar a esse padrezinho? Ele é original. Trato-o como a um filho. Pois bem! Onde está a inconveniência?

Cap. VII. O príncipe Korasoff, em Londres, sobre o século: faça sempre o contrário do que esperam que faça. Eis, por minha honra, a única religião da época.

Cap. VII. Julien, depois de dar a loteria de Verrières a Cholin e saber que o posto era pedido para Gros: será necessário cometer outras tantas injustiças se quiser vencer, e ainda saber escondê-las sob belas palavras sentimentais

Livro II, capítulo 8: Qual a condecoração mais honrosa

Acho que só a condenação à morte honra um homem [...], é a única coisa que não se compra.

Cap. VIII. Mathilde no baile, medindo os pretendentes: Qual dentre eles, pensava, poderia fazer-se condenar à morte, mesmo supondo todas as condições favoráveis?

Cap. VIII. Mathilde e a sua máxima: Eis aí, pensou Mathilde, uma bela prova de minha máxima: a origem nobre tira a força de caráter sem a qual não é possível fazer-se condenar à morte!

Cap. VIII. Mathilde no baile: Onde está o prazer para mim, acrescentou com tristeza, se, após seis meses de ausência, não o encontro no baile que causa inveja a todas as mulheres de Paris? E ainda por cima estou aqui cercada de todas as homenagens de uma sociedade que não poderia imaginar mais bem-composta. Não há aqui, da burguesia, mais do que alguns pares e talvez um ou dois Julien. E, no entanto, acrescentou com uma tristeza crescente, que vantagens a sorte não me concedeu: ilustração, fortuna, juventude, ai de mim!, tudo, exceto a felicidade.

Livro II, capítulo 9: O baile

Cap. IX. Mathilde observando Julien no baile: Nunca se refere a si mesmo! Não é como Caylus ou Croisenois. Esse Sorel parece um pouco meu pai imitando à perfeição Napoleão no baile.

Cap. IX. Na conversa com o conde Altamira, no baile: tudo que se faz é sem prazer e sem reter na memória, até mesmo os crimes. Posso mostrar-lhe neste baile uns dez homens que vão para o inferno como assassinos. Eles já esqueceram o crime, e o mundo também.

quem quer o fim quer os meios; se eu não fosse insignificante e tivesse algum poder, mandaria enforcar três homens para salvar a vida de quatro.
O senhor e eu, nesse jantar, seremos os únicos sem mancha de sangue, mas eu serei desprezado e quase odiado como um monstro sanguinário e jacobino, e o senhor, desprezado simplesmente como homem do povo, um intruso na boa sociedade.
Por aqui, tudo o que tem algum valor pelo espírito, a congregação o entrega à polícia correcional; e a boa sociedade aplaude.

Cap. IX. Julien, depois dessa conversa: o homem que quer expulsar a ignorância e o crime da terra deveria passar como a tempestade e espalhar o mal ao acaso?

Livro II, capítulo 10: A rainha Margarida

Cap. X. Julien olhando Mathilde: Meu Deus, como é bela! Como seus grandes olhos azuis me agradam, vistos de perto e fitando-me como sempre fazem! Que diferença entre essa primavera e a do ano passado, quando eu vivia infeliz, sustentando-me na força da vontade, em meio a trezentos hipócritas sujos e malvados! Eu era quase tão mau quanto eles.

Cap. X. Nota 88 da edição, sobre a origem histórica da rainha Margarida: Os acontecimentos narrados em seguida são rigorosamente históricos. As aventuras e os amores de La Mole e Coconasso serviram de mote, quinze anos depois de lançado o livro de Stendhal, para o romance A rainha Margot, de Alexandre Dumas.

Livro II, capítulo 11: O império de uma moça

Cap. XI. Mathilde, ao decidir que ama Julien: Tenho a felicidade de amar!, pensou, um dia, com um arroubo de incrível alegria. Estou amando, estou amando, é claro!

Livro II, capítulo 12: Será um Danton

Se, apesar de sua pobreza, Julien fosse nobre, meu amor não passaria de uma tolice vulgar, apenas uma aliança desigual; isso eu não aceitaria; não haveria o que caracteriza as grandes paixões: a enorme dificuldade a ser vencida e a obscura incerteza dos acontecimentos.

Livro II, capítulo 13: Uma conspiração

Cap. XIII. Julien: Que bobagem; cada um por si nesse deserto de egoísmo que chamam de vida.

Cap. XIII. Julien, ao receber a declaração, pensando em Croisenois: nossos méritos, os meus e os do marquês, foram sopesados, e o pobre carpinteiro do Jura venceu.

Livro II, capítulo 14: Pensamentos de uma moça

Cap. XIV. Mathilde, sobre a coragem dos pretendentes: Desafiam o perigo à frente de um esquadrão brilhante de aço, mas, e o perigo solitário, singular, imprevisto, verdadeiramente torpe?

Cap. XIV. Mathilde, diante do poder que daria a Julien: Quais serão suas pretensões, se algum dia tiver todo o poder sobre mim? Pois bem! Direi como Medeia: Em meio a tantos perigos, resta-me EU.

Livro II, capítulo 15: Será uma conspiração

Cap. XV. Julien evoca o Cid, de Corneille, na voz do velho d. Diego: Mas a honra é só uma!

Cap. XV. Julien diante do convite de Mathilde: se recusar, eu mesmo vou me desprezar depois. Por toda a vida pensarei nessa história com alguma dúvida e, para mim, uma dúvida assim é a mais humilhante das desgraças. Não foi o que passei por causa do amante de Amanda? Acho que me perdoaria mais facilmente um crime bem claro; uma vez confessado, não pensaria mais nisso.

há defesa para tudo, como diz meu mestre de armas; mas Deus, que quer acabar logo com isso, faz com que um dos dois se esqueça de se defender.

Cap. XV. Julien vendo Mathilde pálida: Ele quase se apaixonou. Pallida morte futura,104 pensou. (Sua palidez anuncia seus grandes desígnios.)

Cap. XV. Nota 104 da edição: Citação da Eneida, de Virgílio.

Livro II, capítulo 16: Uma hora da manhã

Não era, é verdade, aquela volúpia da alma que encontrara algumas vezes junto da sra. de Rênal. Nada havia de terno em seus sentimentos nesse primeiro momento. Era a alegria mais viva da ambição, e Julien era sobretudo ambicioso.
Na verdade, seu entusiasmo era um pouco deliberado. O amor apaixonado, mais do que uma realidade, ainda era um modelo que se imitava.

Livro II, capítulo 17: Uma velha espada

Nas situações cotidianas ela não acredita em religião, Julien pensou, apenas aprecia sua grande utilidade junto aos interesses de sua casta.
Então estive a ponto de ser morta por meu amante!, dizia consigo. Essa ideia a transportava para os belos tempos do século de Carlos IX e de Henrique III.

Livro II, capítulo 18: Momentos cruéis

Suas palavras tão francas, mas tão estúpidas, mudaram tudo num átimo: Mathilde, com a certeza de ser amada, desprezou-o por completo.

Livro II, capítulo 19: A Ópera Bouffe

Se houver uma revolução, por que Julien Sorel não faria o papel de Roland e eu, aquele da sra. Roland?

Cap. XIX. Nota 108 da edição, sobre os Roland: O político e economista Jean-Marie Roland (1734-93), líder dos girondinos, casou com Manon Roland (1754-93), ela também importante figura da Revolução Francesa. Foi ela que, antes de ser guilhotinada, disse a famosa frase: “Oh, liberdade, quantos crimes se cometem em teu nome!”.

Um dos perfis que acabara de fazer espantou-a, maravilhou-a: era impressionantemente parecido com Julien. É a voz do céu! Eis um dos milagres do amor, exclamou extasiada, sem que o suspeitasse, fiz seu retrato.
O amor cerebral é sem dúvida mais espirituoso que o verdadeiro amor, mas só tem alguns instantes de entusiasmo; ele se conhece demais, ele se julga sem cessar; em vez de extraviar o pensamento, só se constrói por força dos pensamentos.

Cap. XIX. O narrador, em defesa do romance: Pois bem, senhor, um romance é um espelho que se leva ao longo de uma grande estrada. Tanto pode refletir, a seus olhos, o azul do céu como a imundície do lamaçal da estrada. Por acaso o homem que leva o espelho em sua bagagem poderia ser acusado de imoral? O espelho mostra a sujeira e o senhor acusa o espelho? O senhor deveria acusar o longo caminho onde se forma o lamaçal e, sobretudo, o inspetor das estradas que deixa a água apodrecer e o lodo se acumular.

Livro II, capítulo 20: O vaso japonês

Julien a Mathilde, diante do vaso quebrado: está destruído para sempre, assim como o sentimento que um dia imperou em meu coração; peço-lhe que aceite minhas desculpas por todas as loucuras que ele me levou a fazer

Livro II, capítulo 21: A nota secreta

vou levá-lo a um salão onde doze pessoas estarão reunidas; o senhor deverá anotar o que cada um disser.

Livro II, capítulo 22: A discussão

Em Paris, obtém-se consideração pela carruagem, não pela virtude.
"A política", continua o autor, "é uma pedra amarrada no pescoço da literatura e que, em menos de seis meses, a faz submergir. A política, entre os interesses da imaginação, é um tiro de pistola no meio de um concerto. Esse ruído é dissonante sem ser enérgico. Não se harmoniza com o som de nenhum instrumento. Essa política vai ofender mortalmente metade dos leitores e aborrecer a outra metade, que a achou bem mais interessante e vibrante no jornal da manhã." "Se seus personagens não falarem de política", continua o editor, "não serão mais franceses de 1830, e seu livro não será mais um espelho conforme o senhor queria…"
Que cada um de nós sacrifique um quinto de seus rendimentos para formar essa pequena tropa devotada de quinhentos homens por departamento.

Livro II, capítulo 23: O clero, os bosques, a liberdade

O cardeal: Cinquenta mil padres repetem as mesmas palavras no dia indicado pelos chefes, e o povo, que, afinal de contas, fornece os soldados, há de se comover mais com a voz de seus padres do que com os versinhos do mundo

A nota secreta que o marquês redigiu, baseada na longa ata de vinte e seis páginas escrita por Julien, só ficou pronta às quinze para as cinco.

Livro II, capítulo 24: Estrasburgo

lembre-se do grande princípio do século: mostre-se o contrário do que esperam do senhor. Aja exatamente tal como agia oito dias antes de ser honrado com seus favores.
Tenho aqui comigo seis maços de cartas de amor manuscritas. Há carta para todo tipo de mulher, inclusive para a de mais elevada virtude.

Livro II, capítulo 25: O ministério da virtude

d. Diego Bustos, sobre a marechala: Todo o seu futuro, senhor apaixonado, depende deste grande problema: será uma beata cansada de seu ofício e má por ser infeliz?

Livro II, capítulo 26: O amor moral

O ritual da carta, nas instruções de Korasoff: Levar essas cartas pessoalmente: a cavalo, de gravata preta, casaca azul. Entregar a carta ao porteiro com ar contrito; profunda melancolia no olhar. Se avistar alguma criada, enxugar os olhos furtivamente. Dirigir a palavra à criada.

Livro II, capítulo 27: Os melhores cargos da Igreja

Cap. XXVII. No jantar da marechala, sobre a conversa à mesa: Depois de escutar uns três minutos, nos perguntamos o que é pior, se a grandiloquência de quem fala ou a sua abominável ignorância.

Livro II, capítulo 28: Manon Lescaut

Cap. XXVIII. A marechala de Fervaques a Julien, na Ópera: Quando se despedia da marechala no vestíbulo da Ópera, ela disse: — Lembre-se, senhor, que quem me ama não deve amar Napoleão; pode no máximo aceitá-lo como uma necessidade imposta pela Providência. De resto, aquele homem não tinha a alma suficientemente elegante para sentir as obras-primas das artes.

tinha copiado linha por linha, sem prestar atenção no que escrevia e, aparentemente, esquecera de substituir as palavras "Londres" e "Richmond", que constavam do original, por "Paris" e "Saint-Cloud".

Livro II, capítulo 29: O tédio

O tédio de um modo de vida que só ambiciona o efeito sobre o público, sem que no fundo do coração haja uma satisfação real com esse tipo de sucesso, tornara-se tão intolerável desde que pensava em Julien
Ficou como que gelada de horror encontrando oito ou dez cartas não abertas, em tudo semelhantes àquela que o porteiro acabara de trazer.
Aí está essa orgulhosa, a meus pés!, pensou Julien.

Livro II, capítulo 30: Um camarote na Ópera Bouffe

A sra. de Rênal encontrava razões para fazer o que seu coração lhe ditava; essa moça da alta sociedade só deixa o coração se comover depois de encontrar boas razões para que se comova.
Retirou as mãos que Mathilde estreitava nas suas e, com um respeito inegável, afastou-se um pouco dela. A coragem de um homem não pode ir mais além.

Cap. XXX. Julien, depois de resistir a Mathilde: Seu amor e sua felicidade aumentavam à medida que se afastava do momento da batalha; já estava se culpando. Como pude resistir-lhe?, pensava. E se ela não quiser mais me amar? Qualquer coisa pode mudar essa alma altiva e devo convir que a tratei de um modo horrível.

Livro II, capítulo 31: Amedrontá-la

Abriu, num gesto apaixonado, as Memórias de Santa Helena, de Napoleão, e durante duas longas horas se forçou a lê-las; apenas os olhos liam, pouco lhe importava, forçava-se.
AMEDRONTÁ-LA, exclamou de repente, jogando o livro ao longe. O inimigo só vai me obedecer à medida que eu o amedrontar, então não vai se atrever a me desprezar.

Livro II, capítulo 32: O tigre

Um viajante inglês relatou a intimidade em que vivia com um tigre; tinha-o criado e o acariciava, mas sempre mantinha em sua mesa uma pistola carregada.
Julien incorporara seu papel com tanta aplicação que chegara a fazê-la pensar que, dos dois, era ela quem amava mais.

Livro II, capítulo 33: O inferno da fraqueza

Epígrafe do capítulo, de Mirabeau: Lapidando esse diamante, um joalheiro inábil apagou algumas de suas centelhas mais vivas. Na Idade Média, ou melhor, ainda no tempo de Richelieu, o francês tinha a força de vontade. MIRABEAU

Mas, por Deus, eu amo a vida… Devo mantê-la por meu filho.

Livro II, capítulo 34: Um homem de espírito

Abstenha-se de fazer novas loucuras; eis uma patente de tenente dos hussardos para o senhor cavaleiro Julien Sorel de La Vernaye. [...] Que ele parta nas próximas vinte e quatro horas para apresentar-se em Estrasburgo, onde fica seu regimento.
Afinal de contas, pensou, meu romance está terminado, e o mérito é todo meu.

Livro II, capítulo 35: Uma tormenta

O sr. de La Vernaye talvez julgue conveniente dar um presente ao sr. Sorel, carpinteiro em Verrières, que cuidou dele em sua infância

Em Estrasburgo, dois dias depois da patente, a vitória já não basta: Mal se tornara tenente, por favor e havia dois dias, já calculava que para ser comandante em chefe aos trinta anos, ao mais tardar, como todos os grandes generais, era necessário ser mais do que tenente aos vinte e três anos.

Pobre e ambicioso, foi com a ajuda da mais consumada hipocrisia e pela sedução de uma mulher fraca e infeliz, que esse homem tentou alcançar uma posição e chegar a ser alguém.
Julien entrou na igreja nova de Verrières. Todas as janelas altas do edifício estavam veladas por cortinas carmesim.
Julien não a reconhecia mais tão bem; atirou uma vez e errou; atirou uma segunda vez, ela caiu.

Livro II, capítulo 36: Detalhes tristes

comprei e mandei carregar as pistolas na loja de fulano, o armeiro. O artigo 1342 do código penal é claro, eu mereço a morte e a estou esperando.
Só então Julien começou a se arrepender do crime cometido.

Livro II, capítulo 37: Um torreão

A mão do tempo se abatera sobre aquele homem outrora tão enérgico. Parecia a sombra de si mesmo, pensou Julien.

Livro II, capítulo 38: Um homem poderoso

Ainda que sorteassem quatro ou cinco vezes seguidas uma lista de trinta e seis jurados entre os notáveis habitantes deste departamento [...] eu poderia considerar falta de sorte se, em cada lista, eu não contasse oito ou dez amigos, e dos mais inteligentes do grupo.
Mathilde sentiu-se em Paris.

Livro II, capítulo 39: A intriga

Julien julgava-se pouco digno de tanta devoção; na verdade, estava cansado de heroísmo. Teria sido sensível a uma ternura simples, ingênua e quase tímida, ao passo que a alma altiva de Mathilde precisava sempre da ideia de um público e dos outros.
A ambição estava morta em seu peito, outra paixão ressurgira das cinzas; ele a chamava de remorso por ter atirado na sra. de Rênal.

Livro II, capítulo 40: A tranquilidade

Julien na prisão: Contudo, é estranho que eu só tenha conhecido a arte de gozar a vida depois de ver seu termo se aproximar.

Os cinco primeiros são autômatos. Valenod é meu agente, Moirod deve-me tudo; Cholin é um imbecil que tem medo da sombra.

Livro II, capítulo 41: O julgamento

Entre as doze pessoas encarregadas de examinar se o crime de seu protegido é incontestável e, sobretudo, se houve premeditação, conto com seis amigos devotados a minha causa, e dei-lhes a entender que dependia deles levar-me ao bispado.
Senhores, não tenho a honra de pertencer à sua classe, os senhores veem em mim um camponês que se revoltou contra a baixeza de sua sorte.
Não tenho ilusões, a morte me espera: ela será justa. Fui capaz de atentar contra a vida da mulher mais digna de todo o respeito, de todas as homenagens. A sra. de Rênal foi como uma mãe para mim. Meu crime é atroz e foi premeditado. Mereço, portanto, a morte, senhores jurados. Mas, ainda que fosse menos culpado, vejo homens que, sem levar em conta o que minha juventude possa merecer da piedade, vão querer punir em mim e desencorajar para sempre essa classe de jovens que, nascidos numa classe inferior e de alguma forma oprimidos pela pobreza, têm a sorte de conseguir uma boa educação e a audácia de se misturar ao que o orgulho dos ricos chama de boa sociedade.
Este é meu crime, senhores, e, na verdade, será punido ainda mais severamente por não ser julgado por meus pares. Não vejo nos bancos dos jurados nenhum camponês enriquecido, mas apenas burgueses indignados…
O senhor barão de Valenod adiantou-se num passo grave e teatral, seguido por todos os jurados.

Julien diante da sentença: Apenas estas palavras: Julgo-me justamente condenado.

Livro II, capítulo 42

Julien na prisão, pensando na sra. de Rênal: Depois de uma ação dessas, como persuadi-la de que é a ela que amo, unicamente? Pois, afinal, quis matá-la por ambição ou por amor a Mathilde.

Livro II, capítulo 43

A carta para o sr. de La Mole tinha sido escrita pelo jovem padre que era conselheiro espiritual da sra. de Rênal e, depois, fora copiada por ela.
Não poderíamos passar dois meses juntos de uma maneira deliciosa? Dois meses são muitos dias. Nunca terei sido tão feliz.
Ó minha pátria! Como ainda és bárbara!

Livro II, capítulo 44

Ela lhe contou que, no dia do julgamento, o sr. de Valenod, tendo no bolso sua nomeação para governador, ousara zombar do padre de Frilair e dar-se o prazer de condenar Julien à morte.
Há ainda as despesas de sua alimentação e de sua educação, que eu adiantei e das quais não está lembrando

Julien sobre o direito natural: Não existe um direito natural: essa expressão não passa de uma tolice antiga digna do promotor que me acusou naquele dia, e cujo antepassado foi enriquecido por um confisco de Luís XIV. Só há um direito quando existe uma lei que proíba fazer alguma coisa sob pena de punição.

A esse preço, dirá seu olhar, qual dentre vocês não ficaria encantado em ter um filho guilhotinado?

Julien diante da morte: Assim também eu, que morrerei aos vinte e três anos. Deem-me mais uns cinco anos de vida, para viver com a sra. de Rênal. E pôs-se a rir como Mefistófeles: Que loucura ficar discutindo esses grandes problemas!

Livro II, capítulo 45

Julien não tinha o menor amor-próprio perante ela e lhe contou todas as suas fraquezas.
quando poderia ter sido tão feliz em nossos passeios nos bosques de Vergy, uma impetuosa ambição transportava minha alma para regiões imaginárias. [...] Não, eu morreria sem conhecer a felicidade se você não tivesse vindo me ver nesta prisão.
Quando Fouqué criou coragem para olhar, ela havia posto, numa pequena mesa de mármore, diante de si, a cabeça de Julien e beijava-a na testa…
A sra. de Rênal se manteve fiel a sua promessa. Não tentou de modo algum atentar contra sua vida; mas, três dias depois morreu abraçada aos filhos.