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O Vermelho e o Negro · Livro II · Capítulo 19

A Ópera Bouffe

Resumo do capítulo

Sozinha, Mathilde de La Mole reconstrói para si mesma, com argumentos, por que valeu a pena ter cedido: não foram o bigode nem a elegância de Julien Sorel a cavalo, foram as ideias dele sobre o futuro da França e a revolução inglesa de 1688.

Análise

Ela chega a se imaginar como a sra. Roland ao lado de um Julien no papel de Roland, o casal girondino que a Revolução Francesa destruiu em 1793.

Se houver uma revolução, por que Julien Sorel não faria o papel de Roland e eu, aquele da sra. Roland?

Cap. XIX. Nota 108 da edição, sobre os Roland: O político e economista Jean-Marie Roland (1734-93), líder dos girondinos, casou com Manon Roland (1754-93), ela também importante figura da Revolução Francesa. Foi ela que, antes de ser guilhotinada, disse a famosa frase: “Oh, liberdade, quantos crimes se cometem em teu nome!”.

No meio de tanto cálculo, um gesto escapa ao controle: rabiscando distraída, Mathilde desenha sem querer o perfil de Julien.

Um dos perfis que acabara de fazer espantou-a, maravilhou-a: era impressionantemente parecido com Julien. É a voz do céu! Eis um dos milagres do amor, exclamou extasiada, sem que o suspeitasse, fiz seu retrato.

Para discutir Esse desenho involuntário é a prova de que existe, afinal, alguma coisa espontânea sob o cálculo, ou é só mais um material que a própria Mathilde vai usar para se convencer de sua paixão?

Na Ópera italiana, uma ária cantada sobre melodia digna de Cimarosa, em que a heroína diz que deve ser punida por amar demais, a arrebata. Em casa, alegando febre, ela repete a cantilena ao piano pela noite e conclui ter vencido a própria paixão.

Mas o próprio texto avisa o leitor: esse amor é antes de tudo cerebral, e o narrador dá a ele um nome técnico.

O amor cerebral é sem dúvida mais espirituoso que o verdadeiro amor, mas só tem alguns instantes de entusiasmo; ele se conhece demais, ele se julga sem cessar; em vez de extraviar o pensamento, só se constrói por força dos pensamentos.

Cap. XIX. O narrador, em defesa do romance: Pois bem, senhor, um romance é um espelho que se leva ao longo de uma grande estrada. Tanto pode refletir, a seus olhos, o azul do céu como a imundície do lamaçal da estrada. Por acaso o homem que leva o espelho em sua bagagem poderia ser acusado de imoral? O espelho mostra a sujeira e o senhor acusa o espelho? O senhor deveria acusar o longo caminho onde se forma o lamaçal e, sobretudo, o inspetor das estradas que deixa a água apodrecer e o lodo se acumular.

No dia seguinte Mathilde se empenha em desagradar a Julien em tudo, e ele, sem entender a manobra, chega a pensar no suicídio. Quando soa uma hora, ele torce um elo da corrente que prende a escada do jardineiro e sobe de novo ao quarto de Mathilde, que se lança em seus braços, jura servidão e, depois que ele desce, lhe atira da janela uma mecha de cabelo cortada como sinal de obediência. É a segunda vitória e o segundo desmoronamento: no almoço do dia seguinte, penteada para mostrar o corte, ela o chama de meu senhor, e no outro, penteada para escondê-lo, o trata com olhos educados e calmos.

Para discutir O narrador defende que "um romance é um espelho que se leva ao longo de uma grande estrada" e que se deve acusar o lamaçal, não o espelho. Que responsabilidade ele recusa, qual assume, e como isso se aplica ao que o leitor acabou de ler sobre Mathilde e Julien?