Filha do Marquês de La Mole, jovem, riquíssima, entediada e leitora. É o segundo amor de Julien, e o oposto exato do primeiro: onde a senhora de Rênal ama sem saber, ela decide amar.
O que a move
Tédio, e a suspeita de que a própria época não oferece nada digno de admiração. Ela cultua um ancestral executado no século XVI porque prefere a grandeza sangrenta do passado à mediocridade confortável do salão. Quem apresenta esse ancestral a Julien, porém, é o Abade Pirard, e falando do irmão dela, o jovem conde Norbert, que deverá desprezá-lo por ser pequeno-burguês.
O ancestral dele era da corte e teve a honra de ter a cabeça cortada na Place de Grève, no dia 26 de abril de 1574, por causa de uma intriga política. O senhor é filho de um carpinteiro de Verrières e, ainda por cima, a serviço do pai dele.
A régua dela para julgar um homem é explícita, e é o que torna Julien interessante aos olhos dela muito antes de qualquer afeto.
Acho que só a condenação à morte honra um homem [...], é a única coisa que não se compra.
Cap. VIII. Mathilde no baile, medindo os pretendentes:Qual dentre eles, pensava, poderia fazer-se condenar à morte, mesmo supondo todas as condições favoráveis?
Cap. VIII. Mathilde e a sua máxima:Eis aí, pensou Mathilde, uma bela prova de minha máxima: a origem nobre tira a força de caráter sem a qual não é possível fazer-se condenar à morte!
Cap. VIII. Mathilde no baile:Onde está o prazer para mim, acrescentou com tristeza, se, após seis meses de ausência, não o encontro no baile que causa inveja a todas as mulheres de Paris? E ainda por cima estou aqui cercada de todas as homenagens de uma sociedade que não poderia imaginar mais bem-composta. Não há aqui, da burguesia, mais do que alguns pares e talvez um ou dois Julien. E, no entanto, acrescentou com uma tristeza crescente, que vantagens a sorte não me concedeu: ilustração, fortuna, juventude, ai de mim!, tudo, exceto a felicidade.
O tonel furado e o pêndulo
O tédio dela tem duas leituras que se completam e não se confundem. Pelo Górgias, Mathilde é a não iniciada do mito: tem tudo e nada retém, porque lhe falta temperança, e a vida que ela recusa é justamente a que se satisfaz com o que o dia presente oferece. Por Arthur Schopenhauer, ela oscila entre o tédio da posse e a dor da falta: entedia-se com o que tem, deseja Julien enquanto ele é perigoso, despreza-o depois da conquista e volta a sofrer quando ele se afasta pelo método Korasoff. Com Platão a falta é dela e tem remédio; com Schopenhauer ela é só o caso extremo de uma condição humana.
a porção da alma dos não iniciados em que se localizam as paixões, justamente por ser incontentável e nada reter, comparou a um tonel furado, por isso mesmo que nunca revela saciedade
O mito tem dois recipientes furados, e o segundo é o que carrega a água: os não iniciados, no Hades,carregam água para o tonel furado num crivo também cheio de furos. Por esse crivo ele entendia a alma, como me explicou quem me contou a história. Comparou a alma dos insensatos a um crivo que é cheio de furos, pois nada consegue reter, visto carecer de fé e memória.
O mito serve a Sócrates para uma escolha entre duas vidas, e a temperança é o nome da que não vaza: Cálicles deveriaem vez de uma vida intemperante e insaciável preferires a bem ordenada e que se satisfaz com o que o dia presente lhe oferece
A vida do homem oscila, como uma pêndula, entre a dor e o tédio, tais são na realidade os seus dois últimos elementos.
O amor como projeto
Mathilde não se apaixona por Julien, ela se apaixona pela própria coragem de amar abaixo da própria classe. É amor lido antes de ser vivido, com modelo histórico, papel a desempenhar e plateia imaginária, e Stendhal o nomeia com todas as letras.
Na verdade, seu entusiasmo era um pouco deliberado. O amor apaixonado, mais do que uma realidade, ainda era um modelo que se imitava.
O narrador separa esse amor do outro por espécie, não por intensidade, e a frase é a chave de qualquer discussão sobre os dois.
O amor cerebral é sem dúvida mais espirituoso que o verdadeiro amor, mas só tem alguns instantes de entusiasmo; ele se conhece demais, ele se julga sem cessar; em vez de extraviar o pensamento, só se constrói por força dos pensamentos.
Por isso ela só se rende quando é tratada com indiferença calculada, e a rendição vem em forma de humilhação escolhida, que é o que ela sempre quis encenar.
Aí está essa orgulhosa, a meus pés!, pensou Julien.
Cap. XIV. Mathilde, diante do poder que daria a Julien:Quais serão suas pretensões, se algum dia tiver todo o poder sobre mim? Pois bem! Direi como Medeia: Em meio a tantos perigos, resta-me EU.
O que o orgulho dela tem de político
O culto ao ancestral decapitado não é gosto mórbido isolado: é a forma que a nostalgia da nobreza toma numa casa que perdeu o poder de fato e ficou com o nome. O salão do pai vive com medo, e Julien lê esse medo no próprio mármore da porta.
Tal ostentação desagradou a Julien. Eles têm tanto medo dos jacobinos! Veem um Robespierre e sua carroça atrás de cada sebe; estão sempre zombando de tudo e exibem dessa forma sua casa para que a canalha a reconheça, em caso de tumulto, e a pilhe.
É essa a matéria que produz alguém como Mathilde. Numa classe que se protege do século em vez de disputá-lo, a única grandeza disponível é a do passado, e ela vai buscá-la em 1574 porque 1830 não lhe oferece nada para admirar.
E o fim confirma a leitura pelo lado prático. Quando resolve salvar Julien, ela não apela a argumento nenhum: vai ao Abade de Frilair, o homem da congregação em Besançon, faz chegar até ele, pela correspondência com a senhora de Fervaques, a palavra "bispado", e ele responde contando os jurados que diz ter na mão.
Entre as doze pessoas encarregadas de examinar se o crime de seu protegido é incontestável e, sobretudo, se houve premeditação, conto com seis amigos devotados a minha causa, e dei-lhes a entender que dependia deles levar-me ao bispado.
A mesma máquina que ela despreza no salão é a que ela aciona sem hesitar quando precisa. É o que separa o orgulho dela do de Julien: ele quer entrar pela janela porque a porta está fechada, e ela tem a chave e finge não gostar da casa.
O fim, e o que ele revela
Depois da execução, ela encena o gesto que vinha ensaiando desde o começo: enterra a cabeça do amante com as próprias mãos, repetindo o culto ao ancestral do século XVI.
Quando Fouqué criou coragem para olhar, ela havia posto, numa pequena mesa de mármore, diante de si, a cabeça de Julien e beijava-a na testa…
O contraste com a morte silenciosa da senhora de Rênal, três dias depois e no mesmo capítulo, é a última coisa que o livro faz, e não é acidente: um amor produz cerimônia, o outro produz consequência. Stendhal não diz qual vale mais, ele põe os dois lado a lado e sai de cena.