Clavis Libri

Personagem

Madame de Rênal

Mulher do prefeito de Verrières, mãe de três filhos, devota e sem nenhum treino de sociedade. Recebe em casa Julien, que o marido contrata como preceptor dos filhos, e é o primeiro amor dele, o mais verdadeiro dos dois, e o que decide o fim do livro.

O que ela é, e o que ela não é

Não é a mulher ardilosa que a trama pediria. Ela não sabe que está se apaixonando enquanto se apaixona, e essa inconsciência é o traço que Stendhal protege do começo ao fim: onde Mathilde delibera, ela apenas obedece ao que sente.

A sra. de Rênal encontrava razões para fazer o que seu coração lhe ditava; essa moça da alta sociedade só deixa o coração se comover depois de encontrar boas razões para que se comova.
Livro II, capítulo 30: Um camarote na Ópera Bouffe

A felicidade dela é medida em coisa nenhuma. A pergunta abaixo, que costuma ser lembrada ao lado dela, é de Julien, não dela: ele a faz ao sair do quarto, na primeira noite, e o contraste é que ela não pergunta nada.

Meu Deus! Ser feliz, ser amado, é só isto?
Livro I, capítulo 15: O canto do galo
Cap. VII. O narrador sobre a formação sentimental da sra. de Rênal: A sra. de Rênal, rica herdeira de uma tia devota, casada aos dezesseis anos com um bom fidalgo, nunca na vida sentira ou vira nada que se parecesse minimamente com o amor.
Livro I, capítulo 7: As afinidades eletivas
Cap. VIII. A ideia que a sra. de Rênal fazia das paixões: ela pensava nas paixões como nós pensamos na loteria: engodo certo e felicidade buscada por loucos.
Livro I, capítulo 8: Pequenos acontecimentos
Cap. IX. Na mesma noite, do lado dela: Quanto à sra. de Rênal, de mãos dadas com Julien, esta não pensava em nada, deixava-se viver.
Livro I, capítulo 9: Uma noite no campo

O papel dela na mecânica do romance

Ela é a única personagem que não calcula, e por isso funciona como régua: tudo que Julien faz ganha sentido quando comparado a alguém que age sem estratégia. Enquanto ele contabiliza vitórias, ela vive o que está acontecendo, e é justamente essa assimetria que faz o leitor perceber a frieza dele sem que o narrador precise dizer.

E é ela quem derruba tudo, num gesto que não é vingança calculada, e sim consciência religiosa cobrando a conta: a carta ao Marquês de La Mole, redigida pelo jovem padre que a dirigia e copiada por ela, chega às vésperas do triunfo e desfaz o casamento e o futuro inteiro.

Pobre e ambicioso, foi com a ajuda da mais consumada hipocrisia e pela sedução de uma mulher fraca e infeliz, que esse homem tentou alcançar uma posição e chegar a ser alguém.
Livro II, capítulo 35: Uma tormenta
Com a doença do filho, o remorso da sra. de Rênal: a sra. de Rênal de repente sucumbiu a um terrível remorso. Pela primeira vez, censurou-se firmemente por seu amor; pareceu compreender, como por milagre, o logro enorme a que se deixara arrastar. Embora de um caráter profundamente religioso, até então ela não pensara na dimensão de seu crime aos olhos de Deus.
Livro I, capítulo 19: Pensar faz sofrer

O que ela faz sem saber que é política

Ela é a personagem que não calcula, e nem por isso está fora da máquina: é justamente por não calcular que reproduz a régua da época com naturalidade, e o livro a mostra fazendo isso três vezes.

A primeira é ao sonhar com o futuro dos filhos, repartindo-os pelas três carreiras que a Restauração deixou abertas a quem tem nome.

A própria Madame de Rênal, ao pensar no futuro dos filhos, reproduz sem perceber a régua de carreiras fechadas que rege toda a cidade: Gostava do sr. de Rênal sobretudo quando ele lhe falava de seus projetos para os filhos, destinando um deles às armas, o segundo à magistratura e o terceiro à Igreja.
Livro I, capítulo 3: Um cura

A segunda é ao gastar toda a influência que tem para tirar Julien da batina (ver A farda e a batina) por um dia, e o que ela obtém é um favor tomado de filhos de fabricantes ricos, isto é, uma peça exata da economia de proteção que rege Verrières.

A Madame de Rênal usa toda a influência que tem para tirar Julien das roupas pretas (ver A farda e a batina) por um dia, e consegue mais do que imaginava: obteve primeiro do sr. Moirod, e em seguida do subgovernador de Maugiron, que Julien fosse nomeado guarda de honra em prejuízo de cinco ou seis filhos de fabricantes muito abastados, e dos quais pelo menos dois eram de uma piedade exemplar.
Livro I, capítulo 18: Um rei em Verrières

A terceira é a mais grave, e é o gesto que derruba o livro inteiro. A carta ao marquês não é vingança de mulher traída: quem a impõe é o confessor dela, um jovem padre recém-chegado de Dijon, que a redige; ela só a copia, abrandando os piores trechos, e mais tarde põe a culpa na religião, que age assim, uma última vez, pela mão de quem menos quer agir.

Pobre e ambicioso, foi com a ajuda da mais consumada hipocrisia e pela sedução de uma mulher fraca e infeliz, que esse homem tentou alcançar uma posição e chegar a ser alguém.
Livro II, capítulo 35: Uma tormenta
A carta para o sr. de La Mole tinha sido escrita pelo jovem padre que era conselheiro espiritual da sra. de Rênal e, depois, fora copiada por ela.
Livro II, capítulo 43

O marido, do outro lado, mede tudo pelo cargo, e o medo dele é eleitoral antes de ser conjugal.

A ameaça que paira sobre o Monsieur de Rênal não é só de fortuna, é política: O sr. de Rênal falava de política com raiva: dois ou três industriais de Verrières estavam se tornando decididamente mais ricos do que ele e queriam enfrentá-lo nas eleições.
Livro I, capítulo 11: Uma noite

O fim, que é o fecho do livro

Depois do tiro, na prisão, é com ela que Julien tem as horas mais felizes da vida, e ele mesmo diz isso sem retórica de despedida.

Não poderíamos passar dois meses juntos de uma maneira deliciosa? Dois meses são muitos dias. Nunca terei sido tão feliz.
Livro II, capítulo 43

E a morte dela fecha o romance em silêncio, três dias depois, sem gesto grandioso nenhum, no contraste exato com o que Mathilde faz no mesmo capítulo.

A sra. de Rênal se manteve fiel a sua promessa. Não tentou de modo algum atentar contra sua vida; mas, três dias depois morreu abraçada aos filhos.
Livro II, capítulo 45