Mulher do prefeito de Verrières, mãe de três filhos, devota e sem nenhum treino de sociedade. Recebe em casa Julien, que o marido contrata como preceptor dos filhos, e é o primeiro amor dele, o mais verdadeiro dos dois, e o que decide o fim do livro.
O que ela é, e o que ela não é
Não é a mulher ardilosa que a trama pediria. Ela não sabe que está se apaixonando enquanto se apaixona, e essa inconsciência é o traço que Stendhal protege do começo ao fim: onde Mathilde delibera, ela apenas obedece ao que sente.
A sra. de Rênal encontrava razões para fazer o que seu coração lhe ditava; essa moça da alta sociedade só deixa o coração se comover depois de encontrar boas razões para que se comova.
A felicidade dela é medida em coisa nenhuma. A pergunta abaixo, que costuma ser lembrada ao lado dela, é de Julien, não dela: ele a faz ao sair do quarto, na primeira noite, e o contraste é que ela não pergunta nada.
Meu Deus! Ser feliz, ser amado, é só isto?
Cap. VII. O narrador sobre a formação sentimental da sra. de Rênal:A sra. de Rênal, rica herdeira de uma tia devota, casada aos dezesseis anos com um bom fidalgo, nunca na vida sentira ou vira nada que se parecesse minimamente com o amor.
Cap. VIII. A ideia que a sra. de Rênal fazia das paixões:ela pensava nas paixões como nós pensamos na loteria: engodo certo e felicidade buscada por loucos.
Cap. IX. Na mesma noite, do lado dela:Quanto à sra. de Rênal, de mãos dadas com Julien, esta não pensava em nada, deixava-se viver.
O papel dela na mecânica do romance
Ela é a única personagem que não calcula, e por isso funciona como régua: tudo que Julien faz ganha sentido quando comparado a alguém que age sem estratégia. Enquanto ele contabiliza vitórias, ela vive o que está acontecendo, e é justamente essa assimetria que faz o leitor perceber a frieza dele sem que o narrador precise dizer.
E é ela quem derruba tudo, num gesto que não é vingança calculada, e sim consciência religiosa cobrando a conta: a carta ao Marquês de La Mole, redigida pelo jovem padre que a dirigia e copiada por ela, chega às vésperas do triunfo e desfaz o casamento e o futuro inteiro.
Pobre e ambicioso, foi com a ajuda da mais consumada hipocrisia e pela sedução de uma mulher fraca e infeliz, que esse homem tentou alcançar uma posição e chegar a ser alguém.
Com a doença do filho, o remorso da sra. de Rênal:a sra. de Rênal de repente sucumbiu a um terrível remorso. Pela primeira vez, censurou-se firmemente por seu amor; pareceu compreender, como por milagre, o logro enorme a que se deixara arrastar. Embora de um caráter profundamente religioso, até então ela não pensara na dimensão de seu crime aos olhos de Deus.
O que ela faz sem saber que é política
Ela é a personagem que não calcula, e nem por isso está fora da máquina: é justamente por não calcular que reproduz a régua da época com naturalidade, e o livro a mostra fazendo isso três vezes.
A primeira é ao sonhar com o futuro dos filhos, repartindo-os pelas três carreiras que a Restauração deixou abertas a quem tem nome.
A própria Madame de Rênal, ao pensar no futuro dos filhos, reproduz sem perceber a régua de carreiras fechadas que rege toda a cidade:Gostava do sr. de Rênal sobretudo quando ele lhe falava de seus projetos para os filhos, destinando um deles às armas, o segundo à magistratura e o terceiro à Igreja.
A segunda é ao gastar toda a influência que tem para tirar Julien da batina (ver A farda e a batina) por um dia, e o que ela obtém é um favor tomado de filhos de fabricantes ricos, isto é, uma peça exata da economia de proteção que rege Verrières.
A Madame de Rênal usa toda a influência que tem para tirar Julien das roupas pretas (ver A farda e a batina) por um dia, e consegue mais do que imaginava:obteve primeiro do sr. Moirod, e em seguida do subgovernador de Maugiron, que Julien fosse nomeado guarda de honra em prejuízo de cinco ou seis filhos de fabricantes muito abastados, e dos quais pelo menos dois eram de uma piedade exemplar.
A terceira é a mais grave, e é o gesto que derruba o livro inteiro. A carta ao marquês não é vingança de mulher traída: quem a impõe é o confessor dela, um jovem padre recém-chegado de Dijon, que a redige; ela só a copia, abrandando os piores trechos, e mais tarde põe a culpa na religião, que age assim, uma última vez, pela mão de quem menos quer agir.
Pobre e ambicioso, foi com a ajuda da mais consumada hipocrisia e pela sedução de uma mulher fraca e infeliz, que esse homem tentou alcançar uma posição e chegar a ser alguém.
A carta para o sr. de La Mole tinha sido escrita pelo jovem padre que era conselheiro espiritual da sra. de Rênal e, depois, fora copiada por ela.
O marido, do outro lado, mede tudo pelo cargo, e o medo dele é eleitoral antes de ser conjugal.
A ameaça que paira sobre o Monsieur de Rênal não é só de fortuna, é política:O sr. de Rênal falava de política com raiva: dois ou três industriais de Verrières estavam se tornando decididamente mais ricos do que ele e queriam enfrentá-lo nas eleições.
O fim, que é o fecho do livro
Depois do tiro, na prisão, é com ela que Julien tem as horas mais felizes da vida, e ele mesmo diz isso sem retórica de despedida.
Não poderíamos passar dois meses juntos de uma maneira deliciosa? Dois meses são muitos dias. Nunca terei sido tão feliz.
E a morte dela fecha o romance em silêncio, três dias depois, sem gesto grandioso nenhum, no contraste exato com o que Mathilde faz no mesmo capítulo.
A sra. de Rênal se manteve fiel a sua promessa. Não tentou de modo algum atentar contra sua vida; mas, três dias depois morreu abraçada aos filhos.