Clavis Libri

Personagem

Abade Pirard

Quem é

Abade do seminário (ver O seminário de Besançon) de Besançon que recebe, examina e protege Julien Sorel, e que depois passa a Paris a serviço do Marquês de La Mole. A nota do capítulo 29 do Livro I o descreve como quem trata Julien sem cálculo, apesar da severidade, e o primeiro a lhe dizer a verdade sobre o que o espera.

Trajetória

No capítulo 25 do Livro I, recebe Julien sem notar a presença dele por dez minutos.

A chegada de Julien ao seminário, diante do Abade Pirard: O homem não notou a presença de Julien. Que se mantinha imóvel, de pé no meio do quarto, onde o deixara o porteiro, que ao sair fechou a porta. Dez minutos se passaram; o homem malvestido ainda escrevia. A emoção e o terror de Julien eram tamanhos que ele sentia que poderia desabar a qualquer momento. Um filósofo teria dito, enganando-se talvez: Eis a violenta impressão da feiura sobre uma alma feita para amar o que é belo.
Livro I, capítulo 25: O seminário

Examina-o, surpreende-se com o domínio da Escritura e estranha a ignorância dos Padres da Igreja, que atribui a Abade Chélan.

O exame de teologia com o abade Pirard: O abade Pirard submeteu Julien a um exame em teologia, e ficou surpreso com a extensão de seus conhecimentos. Seu espanto aumentou quando o interrogou sobre a Sagrada Escritura. Mas, quando chegou às questões sobre as doutrinas dos Padres da Igreja, percebeu que Julien mal conhecia os nomes de são Jerônimo, santo Agostinho, são Boaventura, são Basílio etc. etc. Com efeito, pensou o abade Pirard, eis aí a tendência fatal ao protestantismo que sempre reprovei em Chélan. Um conhecimento profundo e demasiado profundo da Sagrada Escritura.
Livro I, capítulo 25: O seminário

Aceita Julien por causa de Chélan, adverte-o contra sociedades secretas e, ao deixar o seminário, lhe diz sem rodeios o que o espera.

Pirard, apesar da severidade, é quem trata Julien sem cálculo: aceitou-o por causa de Abade Chélan, advertiu-o contra as sociedades secretas e agora o avisa sem rodeios. É ele, o mais rígido de todos, quem primeiro diz a Julien a verdade sobre o que o espera: seus companheiros jamais o olharão sem odiá-lo; se fingirem amá-lo, será para melhor traí-lo.
Livro I, capítulo 29: A primeira promoção

Julien, que conta os colegas como inimigos e Pirard como o mais perigoso de todos, escolhe-o como confessor.

Julien no seminário, entre inimigos: Seguindo as máximas que se impusera, considerou seus trezentos e vinte e um colegas inimigos, sendo o mais perigoso de todos o abade Pirard. Poucos dias depois, Julien precisou escolher um confessor e lhe apresentaram uma lista. Ah, meu Deus! Por quem me tomam?, ele pensou. Será que acham que não sei onde estou pisando? Escolheu o abade Pirard.
Livro I, capítulo 26: O mundo ou o que falta ao rico

A disputa dele com Abade de Frilair é de facção, e cada um nomeia o outro pelo vocabulário dela.

O próprio abade Pirard nomeia o que o move, num pensamento que o livro não deixa em subtexto: Impeço o progresso do jesuitismo e da idolatria, ele pensava.
Livro I, capítulo 29: A primeira promoção
O adversário devolve a acusação com o mesmo vocabulário de facção: Este se sentiu ultrajado com a insolência, ainda por cima por parte de um jansenistazinho!
Livro I, capítulo 29: A primeira promoção

Com uma carta do padre Chas-Bernard em favor dele, promove Julien a explicador do Novo e do Velho Testamento. No concurso geral, Frilair rebaixa Julien ao 198º lugar por vingança contra Pirard.

O alcance da rede que arma essa vingança é descrito sem meias palavras: aquele homem hábil que organizara tão sabiamente a rede da congregação de Besançon e cujas missivas para Paris faziam tremer juízes, o governador e até os oficiais da guarnição, escrevesse, de próprio punho, o número 198 ao lado do nome de Julien.
Livro I, capítulo 29: A primeira promoção

Prestes a cair por não ter tomado partido na disputa entre facções, promove Julien antes de sair, entrega a própria demissão ao bispo e, na despedida, lhe deixa um aviso em latim sobre o sucessor.

Pirard fica com o primeiro volume do Tácito, cuja dedicatória do bispo será o para-raios de Julien no seminário, e se despede com um aviso em latim sobre o sucessor: Erit tibi, fili mi, successor meus tanquam leo quœrens quem devoret. (Pois para ti, meu filho, meu sucessor será como um leão furioso, e que procura alguém para devorar.)
Livro I, capítulo 29: A primeira promoção

Já em Paris, a serviço do marquês, que defendia havia anos no processo contra Frilair, sugere Julien como secretário.

No capítulo 1 do Livro II, instrui Julien sobre a casa que o espera.

Cap. I. O Abade Pirard descrevendo a família de La Mole: Ele tem dois filhos, uma filha e um filho de dezenove anos, elegante por excelência, um extravagante que nunca sabe ao meio-dia o que fará às duas horas.
Livro II, capítulo 1: Os prazeres do campo

Solta Julien em Paris por dois dias antes de apresentá-lo à marquesa, e lhe explica que ele nunca poderá escrever, porque o marquês não gosta de escrevinhadores. É entre os jansenistas de Pirard que Julien conhece o conde Altamira.

No capítulo 34 do Livro II, é no presbitério dele que Julien se esconde enquanto o marquês resiste ao casamento com Mathilde, e no capítulo 35 do Livro II é ele quem traz a Julien os vinte mil francos do marquês, já endereçados ao sr. de La Vernaye.

Temas que encarna

Os temas-padrão que passam por ele são Religião, Formação e Política.

A proteção de Pirard e a perseguição de Frilair chegam a Julien juntas: o 198º lugar no concurso é vingança contra o protetor, não contra o aluno. E o caminho de Julien até Paris continua dentro da mesma briga, porque o patrão a quem Pirard o leva é o homem que tem processo contra Frilair.

Relações

  • Julien Sorel: o aluno que ele examina, aceita, promove e encaminha a Paris.
  • Abade Chélan: por cuja recomendação aceita Julien, e em quem reprova a tendência ao protestantismo.
  • Abade de Frilair: o adversário de facção, que o chama de jansenistazinho.
  • Marquês de La Mole: o fidalgo a quem serve e a quem defende no processo da herança.