O que é
O seminário para onde Julien Sorel vai por ordem de Abade Chélan, depois da carta anônima. a leitura da obra diz que é ali que a hipocrisia deixa de ser traço de província e vira sistema de formação, e que Julien aprende a fingir por método, não por impulso.
Onde aparece
No capítulo 25 do Livro I, a entrada é um ritual de aniquilamento diante de Abade Pirard.
A chegada de Julien ao seminário, diante do Abade Pirard:O homem não notou a presença de Julien. Que se mantinha imóvel, de pé no meio do quarto, onde o deixara o porteiro, que ao sair fechou a porta. Dez minutos se passaram; o homem malvestido ainda escrevia. A emoção e o terror de Julien eram tamanhos que ele sentia que poderia desabar a qualquer momento. Um filósofo teria dito, enganando-se talvez: Eis a violenta impressão da feiura sobre uma alma feita para amar o que é belo.
Pirard, apesar da severidade, é quem trata Julien sem cálculo: aceitou-o por causa de Abade Chélan, advertiu-o contra as sociedades secretas e agora o avisa sem rodeios. É ele, o mais rígido de todos, quem primeiro diz a Julien a verdade sobre o que o espera:seus companheiros jamais o olharão sem odiá-lo; se fingirem amá-lo, será para melhor traí-lo.
Julien no seminário, entre inimigos:Seguindo as máximas que se impusera, considerou seus trezentos e vinte e um colegas inimigos, sendo o mais perigoso de todos o abade Pirard. Poucos dias depois, Julien precisou escolher um confessor e lhe apresentaram uma lista. Ah, meu Deus! Por quem me tomam?, ele pensou. Será que acham que não sei onde estou pisando? Escolheu o abade Pirard.
Julien descobre que a ciência e a lógica não o distinguem, e os colegas lhe dão um apelido.
Julien percebe que seus primeiros passos foram equivocados: a ciência e a lógica, que o distinguiram em Verrières, aqui não valem, e o momento em que ele entende a regra do lugar está nesta constatação amarga:Então a ciência não vale nada aqui? [...] Meu único mérito consistia em [...] captar essas baboseiras. [...] E eu era tolo em me orgulhar!
O hábito de raciocinar, que ninguém avisou a Julien ser um crime:Após ter lhe incutido o hábito de raciocinar corretamente e de não se contentar com palavras vãs, não teve o cuidado de lhe dizer que, em quem não é muito considerado, esse hábito é um crime; pois todo bom raciocínio ofende.
apelidaram-no MARTINHO LUTERO; sobretudo, diziam, por causa dessa lógica infernal de que se orgulhava tanto.
Escute aqui: cada um por si neste mundo, não quero ser atingido pelo raio; Deus pode fulminá-lo como a um ímpio, como a um Voltaire.
O desânimo de Julien no seminário (ver O seminário de Besançon):Poderia se tornar professor de latim; precisava de tão pouco para sua subsistência! Mas então, adeus carreira, adeus o futuro de sua imaginação: era como morrer. Eis os detalhes de um de seus tristes dias.
A exceção é o padre Chas-Bernard, diretor do cerimonial, cuja vaidade de ofício é sincera.
A exceção humana nesse mundo é o padre Chas-Bernard, diretor do cerimonial, cuja vaidade de ofício (as vestes, os castiçais, os paramentos da catedral) é ingênua e sincera, não calculada. Julien, treinado a farejar segundas intenções em todo mundo, espera o golpe que nunca vem, e conclui:E, contudo, ele trabalhou muito, está feliz [...]. Que homem! Que exemplo para mim!
Por cima de tudo, a disputa entre Pirard e Abade de Frilair decide o lugar de Julien no concurso.
O próprio abade Pirard nomeia o que o move, num pensamento que o livro não deixa em subtexto:Impeço o progresso do jesuitismo e da idolatria, ele pensava.
O alcance da rede que arma essa vingança é descrito sem meias palavras:aquele homem hábil que organizara tão sabiamente a rede da congregação de Besançon e cujas missivas para Paris faziam tremer juízes, o governador e até os oficiais da guarnição, escrevesse, de próprio punho, o número 198 ao lado do nome de Julien.
No capítulo 10 do Livro II, Julien mede a primavera de Paris pela do seminário.
Cap. X. Julien olhando Mathilde:Meu Deus, como é bela! Como seus grandes olhos azuis me agradam, vistos de perto e fitando-me como sempre fazem! Que diferença entre essa primavera e a do ano passado, quando eu vivia infeliz, sustentando-me na força da vontade, em meio a trezentos hipócritas sujos e malvados! Eu era quase tão mau quanto eles.
No capítulo 13 do Livro II, para completar o encanto de Mathilde de La Mole, Julien a imagina uma Catarina de Médici, o ideal dos Maslon, dos Frilair e dos Castanède que ele admirara na mocidade.
Nos capítulos 38 e 41 do Livro II, Frilair, o vigário-geral de Besançon, diz controlar boa parte do júri.
Entre as doze pessoas encarregadas de examinar se o crime de seu protegido é incontestável e, sobretudo, se houve premeditação, conto com seis amigos devotados a minha causa, e dei-lhes a entender que dependia deles levar-me ao bispado.
O que significa
A nota dos capítulos 16 a 30 do Livro I diz que a diferença em relação a Verrières não é de grau, é de espécie: na casa dos Rênal Julien finge por impulso, e no seminário aprende a fingir como disciplina que se estuda e se corrige erro por erro. A nota do capítulo 22 do Livro I vê o seminário já antecipado no jantar na casa do Valenod:
O contraste com a casa dos Rênal aparece com clareza total no jantar na casa do sr. Valenod, ainda em Verrières, mas que já antecipa o seminário (ver O seminário de Besançon): ao pedir que calem um preso que cantava, Valenod expõe a mesma engrenagem que Julien vai encontrar em Besançon, poder que se exerce sobre quem não pode responder.
O seminário não fica para trás quando Julien parte para Paris. Ele volta como medida na primavera com Mathilde, volta como molde na desconfiança que Julien tem dela, e volta como instituição no fim, quando o vigário-geral de Besançon diz contar com seis jurados.
Relações
- Temas-padrão: Formação, Aparência e realidade, Religião.
- Personagens: Julien Sorel, Abade Pirard, Abade de Frilair, Abade Chélan.
- Símbolos vizinhos: A farda e a batina e O salão de La Mole.