A hipocrisia é o método de Julien Sorel para subir numa sociedade que não o quer, e o narrador a chama pelo nome desde o capítulo V do Livro primeiro, quando Julien entra na igreja porque julga que isso "seria útil a sua hipocrisia".
Julien sabe de cor o Novo Testamento em latim sem acreditar nele, esconde no colchão um retrato de Napoleão na casa de um prefeito monarquista e finge uma vocação que não tem. No espírito dele, a ideia de religião está ligada "à hipocrisia e à esperança de ganhar dinheiro". No seminário, o fingimento vira disciplina diária. Em Paris, o príncipe Korasoff lhe ensina o que chama de "a única religião da época": fazer sempre o contrário do que esperam.
Mas o livro não mostra só Julien fingindo. Verrières vive sob a tirania da opinião, o jovem bispo de Agde ensaia bênçãos diante do espelho, a sra. de Rênal aprende a fingir para salvar o amante, e Mathilde ama segundo "um modelo que se imitava". A hipocrisia é a língua da época, e Julien, sozinho na cela, ainda se surpreende pensando como hipócrita: "Ó século XIX!".
Os momentos verdadeiros de Julien são os que escapam a ela: sob a tília, quando esquece de fingir, e na gruta da montanha, onde se sente livre. No fim, recusa converter-se "com alarde" para obter o perdão e conta à sra. de Rênal todas as suas fraquezas. A hipocrisia lhe deu a carreira e lhe custou a felicidade.