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A cabeça cortada

O que é

A cabeça de Boniface de La Mole, ancestral da família de Mathilde de La Mole, executado em 1574 por intriga política, e a lenda de que a rainha Margarida de Navarra, amante dele, a teria enterrado com as próprias mãos. No fim do romance, a cabeça é a de Julien Sorel.

Onde aparece

No capítulo 5 do Livro I, Julien encontra na igreja um papel de jornal sobre a execução de Louis Jenrel, anagrama do próprio nome.

Uma passagem breve, quase perdida no meio do capítulo, funciona como presságio: na igreja de Verrières (ver A igreja de Verrières), Julien encontra um papel de jornal esquecido no genuflexório, sobre a execução de um certo Louis Jenrel, anagrama do próprio nome de Julien Sorel. Detalhes da execução e dos últimos momentos de Louis Jenrel, executado em Besançon no dia…
Livro I, capítulo 5: Uma negociação
Julien reage com uma frase que soa a presságio: Pobre infeliz [...], seu nome acaba como o meu…
Livro I, capítulo 5: Uma negociação

No capítulo 1 do Livro II, o ancestral é apresentado a Julien.

O ancestral dele era da corte e teve a honra de ter a cabeça cortada na Place de Grève, no dia 26 de abril de 1574, por causa de uma intriga política. O senhor é filho de um carpinteiro de Verrières e, ainda por cima, a serviço do pai dele.
Livro II, capítulo 1: Os prazeres do campo
Cap. X. Nota 88 da edição, sobre a origem histórica da rainha Margarida: Os acontecimentos narrados em seguida são rigorosamente históricos. As aventuras e os amores de La Mole e Coconasso serviram de mote, quinze anos depois de lançado o livro de Stendhal, para o romance A rainha Margot, de Alexandre Dumas.
Livro II, capítulo 10: A rainha Margarida

Mathilde se veste de preto todo 30 de abril, dia da morte de Boniface, e pergunta que mulher de hoje não teria horror de tocar na cabeça do amante decapitado. A régua dela para um homem sai daí.

Acho que só a condenação à morte honra um homem [...], é a única coisa que não se compra.
Livro II, capítulo 8: Qual a condecoração mais honrosa

Quando Norbert diz que, se a revolução recomeçar, Julien mandará todos para a guilhotina, Mathilde evita responder e zomba do medo do irmão, no capítulo que se chama "Será um Danton?". O medo da carroça de Robespierre é o que Julien lê na porta da casa.

Tal ostentação desagradou a Julien. Eles têm tanto medo dos jacobinos! Veem um Robespierre e sua carroça atrás de cada sebe; estão sempre zombando de tudo e exibem dessa forma sua casa para que a canalha a reconheça, em caso de tumulto, e a pilhe.
Livro II, capítulo 1: Os prazeres do campo

No capítulo 17 do Livro II, quase ser morta por Julien leva Mathilde ao século do ancestral, e no capítulo 19 do Livro II ela se imagina no papel da sra. Roland, que a nota da edição lembra ter sido guilhotinada.

Então estive a ponto de ser morta por meu amante!, dizia consigo. Essa ideia a transportava para os belos tempos do século de Carlos IX e de Henrique III.
Livro II, capítulo 17: Uma velha espada
Se houver uma revolução, por que Julien Sorel não faria o papel de Roland e eu, aquele da sra. Roland?
Livro II, capítulo 19: A Ópera Bouffe
Cap. XIX. Nota 108 da edição, sobre os Roland: O político e economista Jean-Marie Roland (1734-93), líder dos girondinos, casou com Manon Roland (1754-93), ela também importante figura da Revolução Francesa. Foi ela que, antes de ser guilhotinada, disse a famosa frase: “Oh, liberdade, quantos crimes se cometem em teu nome!”.
Livro II, capítulo 19: A Ópera Bouffe

No capítulo 45 do Livro II, depois da execução de Julien, Mathilde reencena a lenda.

Quando Fouqué criou coragem para olhar, ela havia posto, numa pequena mesa de mármore, diante de si, a cabeça de Julien e beijava-a na testa…
Livro II, capítulo 45

a leitura da obra registra que o caso real que sustenta o enredo, o de Antoine Berthet, terminou com o réu guilhotinado em Grenoble em 1828.

O que significa

A nota do capítulo 10 do Livro II diz que Mathilde já tinha um roteiro pronto, a paixão que desafia a morte, o herói decapitado e a rainha corajosa, e que passa os capítulos 1 a 15 do Livro II procurando um ator para o papel que falta; e a nota dos capítulos 1 a 15 do Livro II diz que ela precisa de um herói decapitável para não morrer de tédio.

A cabeça aparece primeiro como fato de família, depois como régua de Mathilde para julgar homens, e só no fim como objeto sobre uma mesa. Antes de tudo isso, o jornal esquecido no genuflexório já tinha posto uma execução em Besançon sob o nome anagramado de Julien.

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