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Recurso literário

Antítese

Pôr lado a lado ideias ou palavras opostas, para que uma ilumine a outra pelo contraste.

Em O Vermelho e o Negro

As crianças o adoravam, ele não gostava delas; seu pensamento estava em outro lugar. [...] Frio, justo, impassível e contudo amado, porque sua chegada de alguma forma expulsara o tédio da casa, foi um bom preceptor.

Duas oposições seguidas definem o preceptor: "As crianças o adoravam, ele não gostava delas" e "Frio, justo, impassível e contudo amado". O contraste mostra um rapaz que agrada sem se entregar a ninguém.

Livro I, capítulo 7: As afinidades eletivas, o narrador

Seu amor ainda era ambição; era a alegria de ele, pobre criatura infeliz e tão desprezada, possuir uma mulher tão nobre e tão bela.

O narrador põe frente a frente "pobre criatura infeliz e tão desprezada" e "uma mulher tão nobre e tão bela", e o contraste mostra que o prazer de Julien nasce da distância social entre ele e quem agora possui.

Livro I, capítulo 16: O dia seguinte, o narrador

Julien, já muito pouco à vontade, pensou que do outro lado da parede da sala de jantar se encontravam pobres detentos cuja porção de carne talvez tivesse sido subtraída para comprar todo esse luxo de mau gosto com o qual queriam aturdi-lo. Talvez tenham fome agora mesmo, disse consigo mesmo; ficou com o coração apertado, não pôde comer e quase não conseguiu falar.

O trecho opõe o "luxo de mau gosto" da sala de jantar à fome dos "pobres detentos" do outro lado da parede, e esse contraste é o que faz o coração de Julien apertar e tira dele o apetite.

Livro I, capítulo 22: Maneiras de agir em 1830, o narrador

seus companheiros jamais o olharão sem odiá-lo; se fingirem amá-lo, será para melhor traí-lo.

Os verbos "odiá-lo" e "amá-lo" aparecem opostos, mas a frase os iguala, porque o amor que os colegas fingirem será só outra forma de ódio, e assim o conselho de Pirard elimina qualquer saída de confiança.

Livro I, capítulo 29: A primeira promoção, Abade Pirard

Se a volta aos sentimentos ternos e o eclipse dos remorsos da sra. de Rênal tivessem chegado um pouco antes, teriam sido uma felicidade divina; obtidos assim, mediante artifício, não passaram de um prazer.

O narrador opõe "uma felicidade divina" a um simples "prazer", e o contraste mede o preço do artifício: o que Julien obtém com cálculo vale menos do que valeria se viesse de graça.

Livro I, capítulo 30: Um ambicioso, o narrador

Não era, é verdade, aquela volúpia da alma que encontrara algumas vezes junto da sra. de Rênal. Nada havia de terno em seus sentimentos nesse primeiro momento. Era a alegria mais viva da ambição, e Julien era sobretudo ambicioso.

O narrador contrapõe a "volúpia da alma" vivida com a sra. de Rênal à "alegria mais viva da ambição" sentida agora, e a oposição deixa claro que a noite com Mathilde é conquista e não ternura.

Livro II, capítulo 16: Uma hora da manhã, o narrador

Suas palavras tão francas, mas tão estúpidas, mudaram tudo num átimo: Mathilde, com a certeza de ser amada, desprezou-o por completo.

As palavras de Julien são chamadas de "tão francas, mas tão estúpidas": o "mas" opõe uma qualidade a um defeito, e o contraste mostra que a sinceridade, que o salvou com a sra. de Rênal, aqui é um erro.

Livro II, capítulo 18: Momentos cruéis, o narrador

O amor cerebral é sem dúvida mais espirituoso que o verdadeiro amor, mas só tem alguns instantes de entusiasmo; ele se conhece demais, ele se julga sem cessar; em vez de extraviar o pensamento, só se constrói por força dos pensamentos.

O texto opõe "extraviar o pensamento" a "só se constrói por força dos pensamentos", e o contraste separa o amor que se perde de si do amor que se vigia sem cessar, como é o de Mathilde.

Livro II, capítulo 19: A Ópera Bouffe, o narrador

Aí está essa orgulhosa, a meus pés!, pensou Julien.

"Essa orgulhosa, a meus pés" junta dois polos opostos, a altivez de Mathilde e a posição de quem se ajoelha, e o contraste resume o triunfo de Julien sobre a classe que o humilhava.

Livro II, capítulo 29: O tédio, Julien Sorel (em pensamento)

A sra. de Rênal encontrava razões para fazer o que seu coração lhe ditava; essa moça da alta sociedade só deixa o coração se comover depois de encontrar boas razões para que se comova.

O narrador opõe duas mulheres: a sra. de Rênal "encontrava razões para fazer o que seu coração lhe ditava", e Mathilde "só deixa o coração se comover depois de encontrar boas razões".

Livro II, capítulo 30: Um camarote na Ópera Bouffe, o narrador

Não tenho ilusões, a morte me espera: ela será justa. Fui capaz de atentar contra a vida da mulher mais digna de todo o respeito, de todas as homenagens. [...] Meu crime é atroz e foi premeditado. Mereço, portanto, a morte, senhores jurados. [...] Mas, ainda que fosse menos culpado, vejo homens que, sem levar em conta o que minha juventude possa merecer da piedade, vão querer punir em mim e desencorajar para sempre essa classe de jovens que, nascidos numa classe inferior e de alguma forma oprimidos pela pobreza, têm a sorte de conseguir uma boa educação e a audácia de se misturar ao que o orgulho dos ricos chama de boa sociedade.

Ele contrapõe os jovens "nascidos numa classe inferior" ao orgulho dos ricos, e o contraste transforma o julgamento de um tiro numa disputa entre pobres instruídos e ricos que os rejeitam.

Livro II, capítulo 41: O julgamento, Julien Sorel