O que acontece é o contrário do que se esperava, ou do que alguém planejou, de um modo que revela algo sobre os personagens ou sobre o mundo da obra.
Em O Vermelho e o Negro
Seu orgulho não queria deixar nada ao acaso, nem à inspiração do momento. De acordo com as confidências de Fouqué e com o pouco que lera sobre o amor em sua Bíblia, traçou um plano de campanha bastante detalhado.
O "plano de campanha bastante detalhado" devia dar controle a Julien, mas produz o oposto: ele fica desajeitado, não sabe responder à sra. de Rênal e o beijo ensaiado quase é surpreendido.
Livro I, capítulo 14: A tesoura inglesa, o narrador
Seguindo as máximas que se impusera, considerou seus trezentos e vinte e um colegas inimigos, sendo o mais perigoso de todos o abade Pirard. Poucos dias depois, Julien precisou escolher um confessor e lhe apresentaram uma lista. Ah, meu Deus! Por quem me tomam?, ele pensou. Será que acham que não sei onde estou pisando? Escolheu o abade Pirard.
Julien escolhe Pirard por julgá-lo o mais perigoso, mas o resultado é o contrário do que calculou: o homem tomado por inimigo se torna o protetor leal, que o promove e o recomenda a La Mole.
Livro I, capítulo 26: O mundo ou o que falta ao rico, o narrador
Afinal de contas, pensou, meu romance está terminado, e o mérito é todo meu.
Julien pensa "meu romance está terminado" no ponto mais alto da ascensão, com patente e nome novo, e no capítulo seguinte a carta da sra. de Rênal derruba tudo e o leva a atirar nela na igreja de Verrières.
Livro II, capítulo 34: Um homem de espírito, Julien Sorel (em pensamento)
Mal se tornara tenente, por favor e havia dois dias, já calculava que para ser comandante em chefe aos trinta anos, ao mais tardar, como todos os grandes generais, era necessário ser mais do que tenente aos vinte e três anos.
Julien consegue a farda que sonhava e, em vez de satisfação, só sente a medida do que ainda falta: "Mal se tornara tenente" e já calcula ser "comandante em chefe aos trinta anos", e o que ganha o deixa insatisfeito.
Livro II, capítulo 35: Uma tormenta, o narrador
Não poderíamos passar dois meses juntos de uma maneira deliciosa? Dois meses são muitos dias. Nunca terei sido tão feliz.
Julien diz "Nunca terei sido tão feliz" quando só lhe restam dois meses de vida, o oposto do que se esperaria de um condenado, e a ironia mostra que a felicidade veio só quando a ambição já não tinha futuro.
Livro II, capítulo 43, Julien Sorel
quando poderia ter sido tão feliz em nossos passeios nos bosques de Vergy, uma impetuosa ambição transportava minha alma para regiões imaginárias. [...] Não, eu morreria sem conhecer a felicidade se você não tivesse vindo me ver nesta prisão.
Julien só descobre a felicidade na cela de condenado, ao dizer que "morreria sem conhecer a felicidade" sem a visita dela, o oposto do que a vida de ambição prometia, e o lugar mais sombrio é onde ele a encontra.
Livro II, capítulo 45, Julien Sorel
A sra. de Rênal se manteve fiel a sua promessa. Não tentou de modo algum atentar contra sua vida; mas, três dias depois morreu abraçada aos filhos.
A sra. de Rênal cumpre a promessa de não se matar, e "três dias depois morreu abraçada aos filhos": o cumprimento literal do juramento não evita a morte, e o desfecho contraria o que a promessa parecia garantir.