Pergunta feita sem esperar resposta, porque a resposta já está implícita, ou porque o que importa é a dúvida que ela expõe.
Em O Vermelho e o Negro
Meu Deus! Ser feliz, ser amado, é só isto?
"Ser feliz, ser amado, é só isto?" não pede resposta, porque o desapontamento já a contém: depois da maior vitória, Julien sente que a felicidade prometida é pouca coisa e que a ambição não sabe mais o que desejar.
Livro I, capítulo 15: O canto do galo, Julien Sorel (em pensamento)
Seguindo as máximas que se impusera, considerou seus trezentos e vinte e um colegas inimigos, sendo o mais perigoso de todos o abade Pirard. Poucos dias depois, Julien precisou escolher um confessor e lhe apresentaram uma lista. Ah, meu Deus! Por quem me tomam?, ele pensou. Será que acham que não sei onde estou pisando? Escolheu o abade Pirard.
"Por quem me tomam?" e "Será que acham que não sei onde estou pisando?" não pedem resposta, pois Julien se sente esperto demais para cair numa armadilha, e as perguntas mostram a vaidade de quem se acha hipócrita consumado.
Livro I, capítulo 26: O mundo ou o que falta ao rico, o narrador
Então a ciência não vale nada aqui? [...] Meu único mérito consistia em [...] captar essas baboseiras. [...] E eu era tolo em me orgulhar!
"Então a ciência não vale nada aqui?" já traz a resposta que Julien acaba de aprender, e a pergunta serve só para marcar o choque de quem descobre que o saber, no seminário, vale menos que a obediência.
Livro I, capítulo 26: O mundo ou o que falta ao rico, Julien Sorel (em pensamento)
Quais serão suas pretensões, se algum dia tiver todo o poder sobre mim? Pois bem! Direi como Medeia: Em meio a tantos perigos, resta-me EU.
"Quais serão suas pretensões, se algum dia tiver todo o poder sobre mim?" é uma pergunta que ela faz a si mesma sem resposta, e expõe o medo de Mathilde de entregar o domínio de si a Julien.
Livro II, capítulo 14: Pensamentos de uma moça, Mathilde de La Mole (em pensamento)
se recusar, eu mesmo vou me desprezar depois. Por toda a vida pensarei nessa história com alguma dúvida e, para mim, uma dúvida assim é a mais humilhante das desgraças. Não foi o que passei por causa do amante de Amanda? Acho que me perdoaria mais facilmente um crime bem claro; uma vez confessado, não pensaria mais nisso.
"Não foi o que passei por causa do amante de Amanda?" é pergunta cuja resposta é sim, e Julien a usa para se convencer de que a dúvida humilha mais que o risco, o que o empurra a subir a escada.
Livro II, capítulo 15: Será uma conspiração, Julien Sorel (em pensamento)
Pois bem, senhor, um romance é um espelho que se leva ao longo de uma grande estrada. Tanto pode refletir, a seus olhos, o azul do céu como a imundície do lamaçal da estrada. Por acaso o homem que leva o espelho em sua bagagem poderia ser acusado de imoral? O espelho mostra a sujeira e o senhor acusa o espelho? O senhor deveria acusar o longo caminho onde se forma o lamaçal e, sobretudo, o inspetor das estradas que deixa a água apodrecer e o lodo se acumular.
"O espelho mostra a sujeira e o senhor acusa o espelho?" não espera resposta, porque o absurdo da acusação já a contém, e a pergunta desloca a culpa da imagem para a estrada e para o "inspetor das estradas".
Livro II, capítulo 19: A Ópera Bouffe, o narrador
Depois de uma ação dessas, como persuadi-la de que é a ela que amo, unicamente? Pois, afinal, quis matá-la por ambição ou por amor a Mathilde.
"Como persuadi-la de que é a ela que amo, unicamente?" não busca resposta, e expõe a dúvida que o atormenta: depois de ter atirado, Julien já não sabe se agiu por ambição ou por amor.
Livro II, capítulo 42, Julien Sorel (em pensamento)
Não poderíamos passar dois meses juntos de uma maneira deliciosa? Dois meses são muitos dias. Nunca terei sido tão feliz.
"Não poderíamos passar dois meses juntos de uma maneira deliciosa?" é um pedido em forma de pergunta, que já traz a resposta esperada, e a delicadeza dela contrasta com o tom calculado que Julien usava antes.