Afirmação que parece contradizer a si mesma ou o bom senso, mas que, pensada, revela uma verdade.
Em O Vermelho e o Negro
Após ter lhe incutido o hábito de raciocinar corretamente e de não se contentar com palavras vãs, não teve o cuidado de lhe dizer que, em quem não é muito considerado, esse hábito é um crime; pois todo bom raciocínio ofende.
Dizer que "todo bom raciocínio ofende" soa contraditório, porque raciocinar bem deveria agradar, mas a frase se revela verdadeira para quem é pouco considerado: o hábito da razão passa a valer como "um crime".
Livro I, capítulo 27: Primeira experiência da vida, o narrador
Esses senhores, ainda que muito nobres, pensou Julien, não são enfadonhos como as pessoas que vão jantar na mansão do sr. de La Mole; e percebo por quê, [...] Eles se permitem ser indecentes.
Julien acha mais agradáveis os que "se permitem ser indecentes" do que os nobres bem-comportados, e a surpresa está em ver a indecência como sinal de liberdade, enquanto a boa educação do salão é que enfada.
Livro II, capítulo 6: Modo de pronunciar, Julien Sorel (em pensamento)
Acho que só a condenação à morte honra um homem [...], é a única coisa que não se compra.
Dizer que "só a condenação à morte honra um homem" contraria o senso comum, que vê na condenação uma desonra, e Mathilde a justifica com o motivo de ser "a única coisa que não se compra".
Livro II, capítulo 8: Qual a condecoração mais honrosa, Mathilde de La Mole (em pensamento)
Se, apesar de sua pobreza, Julien fosse nobre, meu amor não passaria de uma tolice vulgar, apenas uma aliança desigual; isso eu não aceitaria; não haveria o que caracteriza as grandes paixões: a enorme dificuldade a ser vencida e a obscura incerteza dos acontecimentos.
Mathilde afirma que, se Julien fosse nobre, seu amor seria "uma tolice vulgar", ou seja, ama-o por causa da origem humilde, que cria "a enorme dificuldade a ser vencida", e o que seria defeito vira condição da grande paixão.
Livro II, capítulo 12: Será um Danton, Mathilde de La Mole (em pensamento)
Suas palavras tão francas, mas tão estúpidas, mudaram tudo num átimo: Mathilde, com a certeza de ser amada, desprezou-o por completo.
A frase afirma que a certeza de ser amada fez Mathilde desprezar Julien "por completo", o que parece contraditório, mas mostra que o amor dela só vive de dificuldade e morre quando o outro se rende.
Livro II, capítulo 18: Momentos cruéis, o narrador
Contudo, é estranho que eu só tenha conhecido a arte de gozar a vida depois de ver seu termo se aproximar.
Julien acha "estranho" ter conhecido "a arte de gozar a vida" só quando ela termina, e a frase parece contradizer o bom senso, mas revela que a ambição o impediu de viver o presente até a morte chegar.
Livro II, capítulo 40: A tranquilidade, Julien Sorel (em pensamento)