O narrador interrompe a história para comentar, julgar, dar opinião ou falar diretamente com o leitor.
Em O Vermelho e o Negro
tirania da opinião, e que opinião!, é tão burra nas cidadezinhas da França quanto nos Estados Unidos da América.
O narrador interrompe a apresentação de Verrières para julgar em voz própria, com a exclamação "e que opinião!" e o adjetivo "burra", sem esconder o desprezo pela opinião pública das cidadezinhas.
Livro I, capítulo 1: Uma cidadezinha, o narrador
Se a volta aos sentimentos ternos e o eclipse dos remorsos da sra. de Rênal tivessem chegado um pouco antes, teriam sido uma felicidade divina; obtidos assim, mediante artifício, não passaram de um prazer.
Em vez de só contar a cena, o narrador pesa o resultado e dá o veredito, dizendo que o que veio "mediante artifício" não passou de prazer, e deixa à vista o juízo moral sobre o método de Julien.
Livro I, capítulo 30: Um ambicioso, o narrador
Na verdade, seu entusiasmo era um pouco deliberado. O amor apaixonado, mais do que uma realidade, ainda era um modelo que se imitava.
Com "Na verdade", o narrador desmente a aparência de paixão e julga Mathilde diretamente, afirmando que o amor dela "era um modelo que se imitava", em vez de deixar a cena falar por si.
Livro II, capítulo 16: Uma hora da manhã, o narrador
O amor cerebral é sem dúvida mais espirituoso que o verdadeiro amor, mas só tem alguns instantes de entusiasmo; ele se conhece demais, ele se julga sem cessar; em vez de extraviar o pensamento, só se constrói por força dos pensamentos.
O narrador interrompe a história de Mathilde para definir, em tom de ensaio, o "amor cerebral", comparando-o ao "verdadeiro amor", e deixa o juízo dele sobre os sentimentos da moça claro para o leitor.
Livro II, capítulo 19: A Ópera Bouffe, o narrador
Pois bem, senhor, um romance é um espelho que se leva ao longo de uma grande estrada. Tanto pode refletir, a seus olhos, o azul do céu como a imundície do lamaçal da estrada. Por acaso o homem que leva o espelho em sua bagagem poderia ser acusado de imoral? O espelho mostra a sujeira e o senhor acusa o espelho? O senhor deveria acusar o longo caminho onde se forma o lamaçal e, sobretudo, o inspetor das estradas que deixa a água apodrecer e o lodo se acumular.
O narrador para a história e se dirige a um leitor que o acusaria de imoralidade, com "Pois bem, senhor", e passa a defender o próprio livro em voz alta.
Livro II, capítulo 19: A Ópera Bouffe, o narrador
"A política", continua o autor, "é uma pedra amarrada no pescoço da literatura e que, em menos de seis meses, a faz submergir. A política, entre os interesses da imaginação, é um tiro de pistola no meio de um concerto. Esse ruído é dissonante sem ser enérgico. Não se harmoniza com o som de nenhum instrumento. Essa política vai ofender mortalmente metade dos leitores e aborrecer a outra metade, que a achou bem mais interessante e vibrante no jornal da manhã." "Se seus personagens não falarem de política", continua o editor, "não serão mais franceses de 1830, e seu livro não será mais um espelho conforme o senhor queria…"
O autor para a conspiração e discute com o editor num diálogo fingido sobre o próprio livro, o que é uma intromissão aberta da voz do narrador no meio da cena que ele conta.
Livro II, capítulo 22: A discussão, o autor e o editor, em diálogo fingido