Dizer uma coisa querendo que se entenda outra, muitas vezes o contrário. O sentido verdadeiro fica por conta de quem lê ou de quem ouve.
Em O Vermelho e o Negro
Após ter lhe incutido o hábito de raciocinar corretamente e de não se contentar com palavras vãs, não teve o cuidado de lhe dizer que, em quem não é muito considerado, esse hábito é um crime; pois todo bom raciocínio ofende.
O narrador censura Chélan com falsa seriedade, dizendo que ele "não teve o cuidado" de avisar que raciocinar é crime, e assim critica não o cura, e sim uma sociedade em que a razão de um pobre ofende.
Livro I, capítulo 27: Primeira experiência da vida, o narrador
O ancestral dele era da corte e teve a honra de ter a cabeça cortada na Place de Grève, no dia 26 de abril de 1574, por causa de uma intriga política. O senhor é filho de um carpinteiro de Verrières e, ainda por cima, a serviço do pai dele.
Pirard diz que o ancestral "teve a honra de ter a cabeça cortada", e a palavra "honra" é irônica, pois aponta como título de nobreza uma decapitação, o que mostra um mundo que faz do suplício uma credencial de classe.
Livro II, capítulo 1: Os prazeres do campo, Abade Pirard
Não há cem mil escudos de renda nem condecoração que possa lutar contra essa norma de salão. Uma ideia viva, mínima que fosse, parecia uma grosseria.
A ironia está em chamar de "grosseria" justamente uma ideia viva: o narrador inverte o valor, pois num salão tão cheio de boas maneiras o que falta não é educação, e sim vida.
Livro II, capítulo 4: A mansão de La Mole, o narrador
O senhor e eu, nesse jantar, seremos os únicos sem mancha de sangue, mas eu serei desprezado e quase odiado como um monstro sanguinário e jacobino, e o senhor, desprezado simplesmente como homem do povo, um intruso na boa sociedade.
Altamira inverte a lógica social ao dizer que os dois, "sem mancha de sangue", serão os desprezados, enquanto os assassinos respeitados sentariam à mesa, e a ironia denuncia uma sociedade que castiga o inocente e honra o culpado.
Livro II, capítulo 9: O baile, Conde Altamira
Não tenho ilusões, a morte me espera: ela será justa. Fui capaz de atentar contra a vida da mulher mais digna de todo o respeito, de todas as homenagens. [...] Meu crime é atroz e foi premeditado. Mereço, portanto, a morte, senhores jurados. [...] Mas, ainda que fosse menos culpado, vejo homens que, sem levar em conta o que minha juventude possa merecer da piedade, vão querer punir em mim e desencorajar para sempre essa classe de jovens que, nascidos numa classe inferior e de alguma forma oprimidos pela pobreza, têm a sorte de conseguir uma boa educação e a audácia de se misturar ao que o orgulho dos ricos chama de boa sociedade.
Julien fala em "o que o orgulho dos ricos chama de boa sociedade", e o verbo "chama" marca distância irônica, como quem diz que a tal boa sociedade não merece o nome, e o sarcasmo fere os jurados.
Livro II, capítulo 41: O julgamento, Julien Sorel
Não existe um direito natural: essa expressão não passa de uma tolice antiga digna do promotor que me acusou naquele dia, e cujo antepassado foi enriquecido por um confisco de Luís XIV. Só há um direito quando existe uma lei que proíba fazer alguma coisa sob pena de punição.
A expressão "digna do promotor" é sarcástica: Julien chama de tolice a ideia de direito natural e a atribui ao homem que o acusou, ligando a doutrina ao promotor cujo antepassado lucrou com um confisco.