Dizer uma coisa por meio de outra, sem palavra de comparação: em vez de dizer que algo é como outra coisa, diz-se que é. A imagem transfere para o assunto as qualidades da coisa com que foi identificado.
Em O Vermelho e o Negro
Há cinquenta e seis anos que estou aqui; batizei quase todos os habitantes da cidade, que não passava de um vilarejo quando cheguei. Faço todos os dias o casamento de jovens cujos avós foram casados por mim. Verrières é minha família
Ao dizer "Verrières é minha família", o cura chama uma cidade inteira de família, e a imagem pesa porque traduz o laço de cinquenta e seis anos de batizados e casamentos, bem diferente do cargo que Rênal e Valenod enxergam.
Livro I, capítulo 3: Um cura, Abade Chélan
A coleção de boletins do Grande Exército e o Memorial de Santa Helena completavam seu corão. Ele se deixaria matar por essas três obras. Nunca acreditara em nenhuma outra.
O narrador chama o conjunto desses livros de "corão", a forma antiga de Alcorão, e a imagem os transforma em escritura sagrada de Julien, que deposita neles uma fé que não dá ao Novo Testamento.
Livro I, capítulo 5: Uma negociação, o narrador
Ganhei uma batalha, disse a si mesmo tão logo se viu no bosque e longe do olhar dos homens. Ganhei uma batalha!
Julien trata uma discussão sobre salário como combate e diz "Ganhei uma batalha", vocabulário militar que vem de Napoleão e mostra como ele enxerga qualquer relação de poder: como terreno ganho ou perdido.
Livro I, capítulo 10: Um grande coração, Julien Sorel
Ela é boa e gentil, tem por mim uma afeição viva, mas foi criada em campo inimigo.
Ao dizer que a sra. de Rênal "foi criada em campo inimigo", Julien transforma a classe e a política dela em território de guerra, e a imagem separa o afeto que ela sente do lado a que pertence.
Livro I, capítulo 17: O primeiro-adjunto, Julien Sorel (em pensamento)
É a golpes de desprezo público que um marido mata sua mulher no século XIX, fechando-lhe as portas dos salões.
Matar "a golpes de desprezo público" é imagem: o marido não usa arma, e sim o isolamento social, fechando "as portas dos salões", de modo que a exclusão pesa como morte para a mulher.
Livro I, capítulo 21: Diálogo com um mestre, o narrador
Se Julien for um frágil caniço, que se quebre; se for um homem de caráter, que se arranje sozinho
Chamar Julien de "frágil caniço" equivale a dizer que ele é uma planta que verga e se quebra, e a imagem resume a dúvida de Pirard: se o rapaz aguenta o vento do mundo ou se parte.
Livro II, capítulo 3: Os primeiros passos, Abade Pirard (em pensamento)
Pois bem, senhor, um romance é um espelho que se leva ao longo de uma grande estrada. Tanto pode refletir, a seus olhos, o azul do céu como a imundície do lamaçal da estrada. Por acaso o homem que leva o espelho em sua bagagem poderia ser acusado de imoral? O espelho mostra a sujeira e o senhor acusa o espelho? O senhor deveria acusar o longo caminho onde se forma o lamaçal e, sobretudo, o inspetor das estradas que deixa a água apodrecer e o lodo se acumular.
"Um romance é um espelho que se leva ao longo de uma grande estrada" diz, sem "como", que o livro apenas reflete o que passa, e a imagem defende que mostrar a sujeira não é imoral.
Livro II, capítulo 19: A Ópera Bouffe, o narrador
"A política", continua o autor, "é uma pedra amarrada no pescoço da literatura e que, em menos de seis meses, a faz submergir. A política, entre os interesses da imaginação, é um tiro de pistola no meio de um concerto. Esse ruído é dissonante sem ser enérgico. Não se harmoniza com o som de nenhum instrumento. Essa política vai ofender mortalmente metade dos leitores e aborrecer a outra metade, que a achou bem mais interessante e vibrante no jornal da manhã." "Se seus personagens não falarem de política", continua o editor, "não serão mais franceses de 1830, e seu livro não será mais um espelho conforme o senhor queria…"
A política é descrita como "uma pedra amarrada no pescoço da literatura" e como "um tiro de pistola no meio de um concerto", duas imagens diretas, sem palavra de comparação, que dizem que ela afunda o livro e quebra a harmonia.
Livro II, capítulo 22: A discussão, o autor e o editor, em diálogo fingido
AMEDRONTÁ-LA, exclamou de repente, jogando o livro ao longe. O inimigo só vai me obedecer à medida que eu o amedrontar, então não vai se atrever a me desprezar.
Julien chama Mathilde de "O inimigo", palavra de guerra para a mulher que o ama, e a imagem mostra que ele só sabe pensar o afeto como batalha em que se vence amedrontando.
Livro II, capítulo 31: Amedrontá-la, Julien Sorel
Afinal de contas, pensou, meu romance está terminado, e o mérito é todo meu.
Julien chama a própria vida de "meu romance", como se ela fosse uma história que ele escreve e conclui, e a imagem o mostra tomando a ascensão por obra pessoal, da qual "o mérito é todo meu".
Livro II, capítulo 34: Um homem de espírito, Julien Sorel (em pensamento)
A ambição estava morta em seu peito, outra paixão ressurgira das cinzas; ele a chamava de remorso por ter atirado na sra. de Rênal.
A paixão que "ressurgira das cinzas" é imagem de fogo que renasce: a ambição "estava morta", e no lugar dela volta o amor por uma pessoa, que a imagem faz parecer ter estado apenas escondida.
Livro II, capítulo 39: A intriga, o narrador
quando poderia ter sido tão feliz em nossos passeios nos bosques de Vergy, uma impetuosa ambição transportava minha alma para regiões imaginárias. [...] Não, eu morreria sem conhecer a felicidade se você não tivesse vindo me ver nesta prisão.
A frase diz que a ambição "transportava minha alma para regiões imaginárias", como se a alma viajasse levada por ela, e a imagem mostra o quanto Julien se afastou do que tinha ao alcance da mão, os passeios em Vergy.